QUESTIONÁRIO SOBRE TECNOXAMANISMO /QUESTIONNAIRE ABOUT TECHNOSHAMANISM 03/2018


PRIMEIRAMENTE PUBLICADO NA REVISTA METAMORFOSE VOL. 3, N. 1, SET/ 2018, 104-120
Processos de Hibridação entre Artes, Ciências e Humanidades / https://portalseer.ufba.br/index.php/metamorfose/article/view/24081

QUESTIONNAIRE IN ENGLISH – https://tecnoxamanismo.files.wordpress.com/2018/06/questionnaire-about-technoshamanism.pdf

QUESTIONÁRIO DOWLOAD – https://portalseer.ufba.br/index.php/metamorfose/article/view/24081/16950

RESUMO: Entrevista completa sobre tecnoxama- nismo para os integrantes da rede Fabiane M. Borges, Carsten Agger, Ariane Stolfi, Raisa Inocêncio. Feita por Beatriz García, editora da revista espanhola Laudano Magazine. A entre- vista é baseada em estudos prévios sobre textos e publicações relacionadas à rede de tecnoxama- nismo. Parte dessa entrevista foi publicada em espanhol para a Laudano Magazine..

PALAVRAS CHAVE: Ancestrofuturismo; Hackerismo; Arte e tecnologia; Conhecimentos tradicionais e tecnologia.

ABSTRACT: Interview on technoxamanism with Fabiane M. Borges, Carsten Agger, Ariane Stolfi, Raisa Inocêncio, by Beatriz García, editor of the Spanish magazine Laudano Magazine. The interview is based on previous studies on texts and publications related to the tecnoxamanismo network. Part of this interview was published in Spanish for Laudano Magazine.

keywords: Ancestorfuturism; Hackerism; Art and technology; Traditional knowledge and te- chnology.

Você poderia nos explicar o que é o tecnoxamanismo e como surgiu essa comunidade / idéias? Existe alguma relação entre outras práticas que englobam tecnologia e espiritualidade como Gnoise ou tecnomagia?

Podemos dar uma visão localizada no Brasil, que não representa a história de todo mundo envolvido nessa rede. Já que ela é diversa e altermundialista, cada um tem sua própria visão de como chegou nela. Mas na referência brasileira poderia começar assim, com os Fóruns Sociais Mundiais em Porto Alegre a partir de 2001, onde já existiam prá- ticas que relacionavam cultura do it yourself com culturas tradicionais e permacultura, onde muita gente dessas redes de software livre e diy se conheceram. Podemos também situar como ponto específico o Festival Mídia Tática Brasil, que aconteceu em 2003 na Casa das Rosas em São Paulo, organizado por grupos ativistas de software livre e arte ur- bana. Nessa época a esquerda tinha recém chegado ao poder através do presidente Lula (PT), que colocou Gilberto Gil como Ministro da Cultura. Gil participou do MTB, e se interessou em colocar o projeto no ministério. Em pouco tempo os grupos hacktivistas estavam implementando um dos maiores projetos de software livre no Governo do PT, chamado Pontos de Cultura.

Durante a implementação do programa, centenas de hackers, hacktivistas, programa- dores de software livre tiveram acesso a um Brasil profundo, cheio de comunidades e modos de vida muito diferentes do das grandes capitais. A palavra tecnoxamanismo começou a aparecer de novo, mediante o encontro dos implementadores com as co- munidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas. Surgiu a sensação de que o movimento de software livre não tratava somente de inclusão tecnológica, mas de ponto de cone- xão entre culturas, perspectivas, saberes e tecnologias diversas. Nessa fase começou a reaparecer a palavra tecnoxamanismo nas redes, com diversas conotações, umas mais tecnofóbicas, outras mais tecnofílicas, mas no bojo havia a indicação de um reencanta- mento com as culturas nativas, com o xamanismo, com a magia, com a ideia de que a produção tecnológica estava muito distante da sua potência imanente, da conexão com o Planeta Terra. Então em 2014, quando a maioria dos implementadores já tinha saído do governo, resolvemos fazer o I Festival Internacional de Tecnoxamanismo, seguindo a tradição de festivais que relacionava software livre com modos de vida alternativo ou tradicionais como Digitofagia, Submidialogia, Metareciclagem, Tropixel, Tecnomagia, as Internacionais do Movimento sem Satélite, etc.

O I Festival de Tecnoxamanismo foi feito em Arraial d’Ajuda no Instituto de permacul- tura Itapeco, com colaboração do esporo de Metareciclagem Bailux, Ônibus Hacker, Voodoohop, LCCPI – laboratório de corpo-criação-performance-interferência, Aldeia Velha Pataxó, entre muitos outros agentes. Ali se definiu um pouco mais claramente do que se tratava o tecnoxamanismo: 1) tecnologias das plantas, agrofloresta, permacultura, nascentes de água, banco de sementes etc; 2) produção de comunidade, convivência, trocas de saberes e tecnologias livres, relação com comunidades tradicionais; 3) software livre, open source, do it yourself; 4) Arte, Subjetividade e tecnologias eletrônicas e sociais: rituais, produção estética, música, cinema, vídeos, performances, construção imaginá- ria e ficcional, plantas medicinais, chás, banhos, etc.

Depois do I Festival, aconteceram vários outros encontros, em muitos deles consti- tuindo parcerias com redes afins, como Criptorave, magia do caos, caravana climática, ônibus hacker, hacker camping, Baobáxia, etc.

O estágio atual é descentralizar o tecnoxamanismo do Brasil, por isso o III Festival Internacional será feito nos Andes no Equador, aos cuidados do Central Dogma (outu- bro ou novembro de 2018).

Os xamãs têm um pé na ciência e o outro no mundo espiritual; Eles são bruxas e cientistas tudo junto. Mas, eles também podem ser “hackers”? Em qual sentido?

O tecnoxamanismo não é uma “formação” técnica para xamãs. Vemos a rede do tecno- xamanismo como uma antena de rádio, um aparato sincrético de produção imaginária, um aliciador de potências em defesa dos terráqueos. Talvez a melhor forma de com- preender o tecnoxamanismo seja a de percebê-lo como um plano de articulação, que não dá conta dos princípios e dos fins, mas é mais uma plataforma que se situa entre as coisas afins, e que cria alianças entre elas. A partir daí é possível forjar sim algumas práticas, metodologias, conceitos, desde que em um contínuo processo entrópico e ex- perimental.

Dentro dessas alianças entram comunidades sobreviventes, que tiveram suas perspec- tivas de mundo devastadas pelos sistemas coloniais e industriais e que a duras penas resistem a esse sistema, salvaguardando suas ontologias já transversalizadas, mas insis- tindo nelas.

Nessa transversalidade surgem inúmeros grupos que vêem sim na rede de computado- res, na linguagem da programação, no uso de aparatos tecnológicos, formas de sobrevi- vência e expansão dos seus modos de vida. Esses índios, quilombolas, ciganos, beduínos, aborígenes, bárbaros contemporâneos podem com certeza serem hackers, e os sistemas que podem criar a partir disso sofrem toda a perseguição, anulação, silenciamento que os hackers ocidentalizados sofrem. O hackerismo a princípio pode ir para qualquer lado e servir a qualquer ideologia. Por isso é tão importante discutir a ética hacker e sua rela- ção com essas ontologias desperdiçadas. Aqui talvez o tecnoxamanismo funcione como mais um palanque, entre tantos outros, para essas discussões, e também funciona como base de criação de conceitos, e ainda de práticas transversais, que tenta recuperar ideias de futuro perdidas no passado, #takebackthefuture.

Os xamãs também são “tecnologia”, pois são veículos dos espíritos. Podemos usar a tecnologia para nos tornar xamãs e nos conectar mais com a natureza? E para se conectar ao Supernatural? Todos poderiam se tornar um xamã?

Existem algumas possibilidades da ciência de responder a isso nas implicações epis- temológicas das teorias da física quântica, multiverso, buraco da minhoca, teoria das cordas, etc. A especulação metafísica e a ficção científica também colaboram para a aproximação entre a tecnologia e a ciência atual e o que você chama de supernatural, como por exemplo o paradoxo Einstein-Podolsky-Rosen, que nos ajuda a entender o papel da observação na criação da realidade, que para muitos pode representar o papel de Deus, mas para uma visão mais xamânica poderia representar por exemplo, a capa- cidade humana de criação contínua de realidade através da linguagem. Outro exemplo, a realidade virtual e a experiência da possessão. Através de alguns óculos 3D é possível entender o que significaria uma mudança pragmática de perspectiva, encarnação, pos- sessão de outros ponto de vista.

No tocante a todos podermos ser xamãs, isso dependeria de uma mudança estrutural na relação dos humanos com os outros modos de existência, assim como com a Terra e Cosmos.

Vocês comparam o chefe yanomami David Kopenawa com Peter Sunde do Piratebay1. O que os indígenas e os piratas têm em comum?

São muitas coisas em comum: índios e piratas são proibidos de serem nômades; ambos hoje em dia lutam para manter seus territórios presenciais ou virtuais; ambos consti- tuem redes de apoio para ampliarem seus territórios subjetivos e manterem seus mo- dos de vida terrenos; ambos sofrem perseguição implacável. David Kopenawa e Peter Sunde, vistos aqui como personagens conceituais, representam as lutas indígenas e hac- kers que anunciam o fim do mundo (o fim das florestas – o fim da internet). Eles têm os mesmos inimigos, os donos do mundo. Lutam por existências autônomas e vida comu- nitária. Ambos estão sendo dizimados. Ambos não se calam e anunciam a tragédia por vir. Ambos são todas as outras lutas que não se enquadram nesse sistema de produção, consumo e controle.

Fala de Fabiane Borges sobre índios e piratas disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HVYUrawSZXo. Acesso em 22.11.2017

Vivemos no antropoceno, a idade em que os seres humanos são agentes geológicos da devastação. A profecia dos Yanomamis diz que estamos perto do fim do mundo. Vocês são pessimista (ou realistas)? Podemos parar esta destruição progressiva usando tecnologia e xamanismo para salvar o planeta?

Nós não somos pessimistas, mas não podemos ignorar as potenciais consequências do antropoceno. Os índios não têm lugar nele, como nos disse Sônia Guarani, porta-voz da aldeia Jaraguá em um dos encontros da nossa rede na Casa Luz em São Paulo em 2016: “Procuramos uma “Terra sem mal”, onde a gente tenha possibilidade de existir. Nós somos os protetores de vocês, se os índios morrerem, todos vocês morrerão também. Ou nas palavras de Ñanderu, é assim: quando não existir mais nenhum índio na Terra, não vai existir mais branco, nem negro, nem ninguém. A Terra fica, nós que vamos. Esta Terra Sem Mal existe.”2

É importante sempre pensar que quando usamos a palavra TECNO é para pensar, pro- blematizar, reinventar a tecnologia. Não se trata só de acesso e inclusão digital. É aqui que entra o xamanismo como palavra referência para todas essas ontologias desper- diçadas. Qual ciência teríamos hoje em dia caso tantos projetos de futuro produzidos lá atrás não fossem tão vigorosamente massacrados pelas inquisições, monoteísmos, racionalismo, capitalismo, neoliberalismo, fascismos de direita e esquerda? Essa aliança entre tecnologia e xamanismo é política. E traz para o centro do debate o futuro da pró- pria tecnologia. Não basta só fazer a conexão entre as palavras. É o modo de produção da ciência e tecnologia e seus usos que está em questão.

Fabiane escreve sobre mitos reciclados e cosmologia livre. Como isso funciona?

É algo muito simples. Junta um bando de interessados e cria hiperstição, coloca as ideias, os imaginários e os inconscientes para trabalhar, cria novas ficções, ou recicla ficções antigas para ampliar o espectro memorativo. Os rituais têm sido fundamentais para isso, pois eles recriam dimensões corpóreas, ampliam a percepção, constituem co- munidades de signos e de convivência. Temos muitos exemplos de rituais do it yourself e cosmogonia livre que temos organizado nos encontros de tecnoxamanismo, assim como nos trabalhos clínicos com sonhos. No blog temos alguns exemplos: https://tec- noxamanismo.wordpress.com/blog/

2 Mais sobre o encontro disponível em: ://tecnoxamanismo.wordpress.com/2016/02/16/tecnoxamanismo-na-casa- luz-sampa/ .Acesso em 22.11.2017

Fiquei chocada com o conceito de “hackeamento do inconsciente”. O que vocês querem dizer? A internet pode ser uma espécie de inconsciente coletivo?

Podemos usar alguns filmes sci-fi como exemplo: na série Matrix, a sociedade é mo- nitorada por programas de computador, a realidade é virtual, e o desejo é comple- tamente conectado com os algoritmos. Acordar disso é um processo doloroso, e no caso do Neo é preciso que seu inconsciente seja hackeado pelos navegantes da nave Nabucodonozor habitantes de Zion, por isso é a partir dos sonhos que começa sua saga. Na série Black Mirror tem o episódio Playtest onde o viajante aceita um trabalho de jogar com um programa de realidade virtual a partir do seu próprio inconsciente, e acaba desenvolvendo uma tecnopsicose que o leva à morte, nesse caso houve hackea- mento só do lado do jogo, mas não houve guerra hacker para libertar seu inconsciente. Ou o Páprika onde um investigador dissidente hackeia as mentes das pessoas com fins criminosos e acaba criando um mundo paralelo de pesadelo e loucura. Ou seja, o sci-fi já está falando disso a muito tempo, e na sociedade de controle, o inconsciente coleti- vo é território de disputa.

Todas as mídias de comunicação, incluindo aí os robôs da internet se utilizam dessas táticas de apropriação dos inconscientes para promover suas ideias de mundo. Nessa disputa de que mundo queremos, o inconsciente coletivo é um dos campos mais ele- mentais, já que é nele que se formam os desejos, valores, éticas, projetos ideológicos, conversões em todos os níveis. Nesse caso, o tecnoxamanismo com suas teorias, cons- tituição de rede, projetos transculturais e imersivos tende a fortalecer uma rede de in- conscientes coletivos livres, assim como promover a saúde mental.

Vale lembrar que trabalhamos com a ideia de inconsciente maquínico da esquizoaná- lise, onde o inconsciente é visto como uma usina de produção de desejo de mundo, e essa usina é formada também por forças externas, que direcionam esses inconscien- tes segundo a intensidade de suas interferências (algoritmos de controle nas mídias sociais, memes, associação de lutas políticas com nomes de empresas, etc). De modo que a formação de comunidades de inconscientes produzem uma força que é capaz de resistir às demandas nocivas e redimensionar o padrão coletivo do desejo interferindo assim no real sociopolítico; é a resistência propriamente dita contra a zumbização pro- movida pelo capitalismo. Essas comunidades de inconscientes se formam a partir de experiências coletivas, incluindo aqui trabalho com imersões, sonhos, experiências de intensificação de estados perceptivos, que seria por assim dizer, a parte clínica do tec- noxamanismo (clínica social para o futuro).

A hipótese cultural, como parênteses de Gutenberg ou teorias como hiperstição, apontam que estamos vivendo um segundo período oral onde as ficções (mitos) têm efeito na “realidade”; eles podem mudar as coisas. O que vocês acham? Estamos voltando para um tempo de magia e mitos?

A ficção sempre teve efeito na realidade. O que é a mitologia, os monoteísmos, o pró- prio capitalismo, senão uma ficção levada a sério e defendida com armas? Acho que agora só estamos nos dando conta do quanto é poderosa essa nossa capacidade de ima- ginar, e isso é libertador porque nos coloca mais próximos da produção de realidade. Precisamos exercer mais profundamente nossa capacidade de produzir nossas ficções, e ampliar nossos imaginários, assim como investir mais na potência dos nossos sonhos. Memes e “fatos alternativos” (pós verdade) faz parte desse processo de dar-se conta que a linguagem é um vírus (William S. Burroughs, Laurie Anderson), que a história é a luta para concretizar a ficção coletiva de um bando (catolicismo, protestantismo, todos mo- noteísmos, ideologias totalitárias, projetos coloniais). E o mais importante é entender que a ficção não é um operador simbólico abstrato distante da realidade, mas efetiva- mente um produtor de realidade.

Em relação a isso, conte-nos sobre os conceitos de ancestrofuturismo e “ruidocracia”. Vocês poderiam nos dar algum exemplo de práticas e rituais ancestrofuturistas? (Sonhos, memórias ancestrais …)

Ancestrofuturismo é um conceito que orquestra a junção de dois campos do pensa- mento, tradicionalmente separados pela igreja, depois pela ciência. A ancestralidade, vista aqui como um campo enorme de crenças, valores, projeções de futuro, leituras do passado, experiências étnicas, práticas rituais de inúmeros povos. E o futurismo, identificado com o modernismo como um processo de evolução e desenvolvimento contínuo. Porém o conceito problematiza exatamente essa ideia de evolução apregoada pela modernidade, e hoje em dia diante das catástrofes climáticas e projeções de fim do mundo, se torna mais evidente que esse futurismo encontra-se em crise, já que ele não saiu exatamente conforme o projeto desenhado, e acabou por não trazer a liberdade dos povos, mas acirrar seus conflitos, assim como aprofundar problemas sociais como mais valia e sociedades de classe.

Percebemos que as ontologias desperdiçadas durante o processo civilizatório moderno guardavam sementes de futuro muito mais abundantes e sustentáveis, conectados com o planeta Terra e seu entorno cósmico. De modo que ancestrofuturismo, e aqui podemos citar também o afrofuturismo, problematiza o projeto de futuro moderno, trazendo para essa problematização, todas os projetos de futuro que sucumbiram nas montanhas de lixo criadas pelos monoteísmos e o capitalismo.

A ruidocracia são essas vozes vindas de todos os lados, os encontros das ontologias vivas e mortas, o ruído dos povos que sucumbiram aos projetos de dominação. Mas também é uma técnica de escuta, de criar comunicação intensiva a partir de propostas ruido- sas, mas eficazes em construir outros territórios de inteligibilidade. Vem das práticas associadas ao noise, a destruição da música harmônica ocidentais, que por sua vez se dá conta que tudo soa, que tudo emite, que não há como conter o ruído das coisas. É um campo experimental clínico, estético e também tecnológico. Em relação ao tecno- lógico, pensamos nos aparatos eletrônicos que facilitam nossa escuta da matéria, dos campos magnéticos, do espaço sideral, etc. A ruidocracia também é um movimento de músicos experimentais ligados ao noise e à eletroacústica que cria um espaço de expe- rimentação coletiva e catarse, transe, emancipação da consciência, alteração dos ritmos e criação de mundos sonoros.

Um exemplo de ancestrofuturismo, e nesse caso mais especificamente de afrofuturis- mo: A rede Mocambos, uma rede tecnológica composta por cerca de 200 quilombos brasileiros, que trabalha no processo de integração de quilombos a partir de um sistema de preservação da sabedoria ancestral, chamado Baobáxia. Além de implantar um nodo local – mucua de Baobáxia, que é um sistema de acervo digital compartilhado entre as comunidades, também planta em cada uma delas uma árvore Baobá que significa a perseverança futura da cultura africana no Brasil, conectando-a com uma prática an- cestral. Estas árvores podem viver milhares de anos, então esse processo significaria a criação dum futuro afrobrasileiro milenar.

Vocês organizam rituais diy e também fazem totems eletrônicos. Vocês poderiam nos explicar sobre os rituais e totens mais notáveis que criaram?

No II festival internacional de tecnoxamanismo, que aconteceu na Aldeia Pará, da etnia Pataxó, no Sul da Bahia, nos envolvemos em uma série de rituais tradicionais indígenas, desde o dia da abertura, mas estávamos reservando uma das noites para a realização de um ritual ruidocrático, onde iríamos usar todos nossos gadgets e máquinas de ruído. Discutimos entre nós não índios como montar a aparelhagem para preparar nossa per- formance coletiva, mas surpreendentemente, a energia elétrica acabou em todas aldeias da região. O resultado foi que tivemos que fazer o ritual ao redor da fogueira, usando nossas vozes e instrumentos acústicos. Essa surpresa fez com que nos aproximássemos das tecnologias indígenas gerando uma sinergia muito forte e um ritual muito rico, com o céu totalmente aberto e estrelado, de horas e horas de catarse coletiva entre in- dígenas e não indígenas.

… E algumas das performances mais notáveis de acordo com vocês? Adorei ‘Cassandra’ quando Fabiane se apresentou em Barcelona!

Copiamos aqui parte do texto “Ancestrofuturismo”, por considerar um dos rituais do it yourself mais legais que fizemos.

Casa Nuvem – Rio de Janeiro. Tema do ritual: cinema ao vivo SCIFI – Ficção e Ruidocracia. (31/06 e 01/07/2015) 3

O ritual foi montado como um setting de cinema ao vivo de ficção científica ances- trofuturista. Os participantes foram convidados a embarcar em uma espaçonave do it yourself para fazer uma viagem no tempo. O processo foi organizado a partir de três laboratórios: 1) mini-robôs que emitiam ruído através de luz nas placas solares (NANO/ PPGAV/EBA/UFRJ); 2) Iniciação à tecnomagia/tecnoxamanismo com ritual performá- tico, tecno-transe, corpo alegórico/fantasia e iluminação para transes (técnicas de luz – diy) (Fabi Borges e Lívia Diniz) e 3) construção de traquitanas sonoras e circuit bending (Traquitanas sonora). A partir desses laboratórios foram sendo criadas as narrativas do ritual sci-fi ancestrofuturista que contou com a criação de 7 personagens – os Coiotes – responsáveis pelo rito de iniciação na nave mãe. Eles foram iniciados pelo indígena tupinambá Anapuaka, que com banhos de erva e maracá introduziu os coiotes no uni- verso ritual, e logo eles passaram a fazer o mesmo com o público, que era vendado e le- vado para dentro da nave mãe. Outros personagens também foram aparecendo como a maga da entrada da nave, o drone que passava incenso pela casa e no corpo das pessoas, o quarto das luzes diy e das traquitanas onde as pessoas faziam os sons experimentais, além disso teve projeções ritualísticas em vídeo mapping e as performances espontâ- neas na rua e dentro da casa.

Sobre os 7 coiotes há que se dizer que cumpriram um papel importantíssimo dentro de todo o processo, já que foram eles que fizeram a iniciação do público. Este entrava na nave com os olhos vendados e era convidado a imergir no cenário ruidoso e se relacio- nar com todas essas salas ocupadas por personagens ficctícios, ruídos, banhos de ervas, robôs sonoros, drones de incenso, entre outros. Quando o público tirava a venda, estava diante de um processo do qual já fazia parte, e escolhia seu lugar na nave mãe. No final de tudo, pessoas falando que algo aconteceu ali. Foi uma experiência catártica, o transe aconteceu, houve comunicabilidades diversas que prescindiram da palavra. A cegueira do público produziu estados de medo e de confiança. E as filmagens talvez não tenham dado conta da narrativa feita ali, mas possivelmente serve como uma derivação narrati- va do acontecimento, o que torna esses eventos multinarrativos.

Disponível em: disponível em: https://tecnoxamanismo.wordpress.com/2016/02/17/tecnoxamanismo-ficcao-e- ruidocracia-na-casa-nuvem-3001-e-0102-de-2015/ . Acesso em 22.11.2017

Aldous Huxley escreveu em “The doors of perception” que peyote e outras drogas podem ampliar nossa visão para perceber parte de algo que ele chama de “Free Intelligence” (semelhante ao software livre e livre acesso ao conhecimento de uma maneira cósmica). Podemos usar outro tipo de tecnologia para ampliar nossa percepção e obter diferentes estados de consciência? Estou pensando em música eletrônica, por exemplo, ou 3D …

Os enteógenos são um caminho que podem nos levar para outros estados de cons- ciência, para estados de transe e percepção do “supernatural aumentado”, para outras dimensões da realidade ou nos aproximar de outras ontologias. Mas também existem outras tecnologias que podem ser usadas como portas para outros estados de consciên- cia. Se considerarmos as sociedades indígenas da América Latina, o uso de enteógenos é um elemento de uma prática ritual complexa que, em alguns casos, pode envolver vários dias de preparação, jejum e limpeza, sem os quais o próprio uso dessas substân- cias perderia seu significado, por seus praticantes estarem demasiadamente intoxicados com outras coisas.

Muitas práticas rituais podem ter semelhante desempenho, sem envolver necessaria- mente o uso de enteógenos. Essas práticas podem usar tecnologias como cantar, dan- çar, concentrar-se ou privação sensorial e também usar tecnologias modernas, como a música eletrônica. Para o tecnoxamanismo, o ruído eletrônico, os efeitos de iluminação e a realidade virtual podem desempenhar um papel singular na busca de intensifica- ção perceptiva. E pensamos que vale a pena explorar essas possibilidades. Até porque é importante que as pessoas experimentem a partir do lugar onde estão, e se pensar- mos na vida cotidiana das grandes cidades, onde o acesso mais fácil é o eletrônico, isso pode promover novas experiências, que não necessariamente precisem de migração fí- sica (antropológica). O noise e a experiência sonora é bem vindo em qualquer nível no tecnoxamanismo. Isso quer dizer que as experiências, consideradas místicas para uns e intensificadoras para outros, podem existir em qualquer lugar, até num celular. É uma forma de iniciação, depois disso, cada pessoa ou grupo procura seus lugares de interesse.

Conte-nos sobre os Festivais Internacionais de Tecnoxamanismo e os projetos sociais e artísticos relacionados a ele. Quando o próximo festival deverá acontecer?

O primeiro festival aconteceu em Arraial d’Ajuda no instituto de permacultura ITAPECO, que contou com uma forte presença queer e performática, além da presença dos indígenas Pataxós da Aldeia Velha. Já o segundo, aconteceu na aldeia Pará, da etnia Pataxó, próximo à Caraíva no Sul da Bahia. Ficamos acampados no acampamento da Mãe Jabuticaba, e através de um crowdfunding e inscrições que levantaram cerca de 20 mil reais, construímos também um ponto de cultura, uma cozinha coletiva, e um espaço para rituais no centro da aldeia. Os indígenas construíram e nos instruíram so- bre sua cultura de mutirão e gambiarra. Também é importante dizer que quase todo o dinheiro foi gasto na produção indígena, fazendo assim o festival contribuir para a economia local.

Durante o festival, que contou com cerca de 140 não indígenas, que se integraram a um número um pouco maior de indígenas, focamos nossas atividades em alguns eixos como: a plantação de uma agrofloresta, que além de oferecer recursos para o futuro da aldeia, também está ajudando a recuperar algumas nascentes de rios; implementação de um ponto de cultura com internet via rádio; instalação de um nodo de Baobáxia, uma rede autônoma peer-to-peer que conecta diversas comunidades tradicionais; ofici- nas de edição de vídeo e áudio, que geraram um pequeno curta-metragem com roteiro e elenco indígena; oficina de circo e mapeamento da aldeia com as crianças, troca de sementes, plantação coletiva de mudas de plantas, realização de discussões e debates sobre questões relacionadas a diversas práticas e interesses coletivos, como saúde, eco- turismo, permacultura e economia, além de performances, festas e rituais diversos ao longo da semana. Agora estamos tentando criar um programa de apoio ou de residên- cias para continuar a colaboração com os Pataxós da Aldeia Pará.

O festival junta artistas, makers, biólogos, hackers e também indígenas … Enquanto algumas pessoas pensam que os indígenas têm uma cultura menos desenvolvida, podemos aprender muito com eles. Que valores e conhecimentos nossa sociedade pode aprender com as comunidades indígenas?

Não existe tal coisa como uma cultura menos “desenvolvida”. Como nos esclarece Viveiros de Castro, trata-se de ontologias diferentes, de perspectivas de mundo (sua teoria do perspectivismo). Os não índios definitivamente podem aprender muito com as comunidades indígenas. Cada encontro é uma lição de vida, mas aprendemos acima de tudo sobre a possibilidade da existência de um modo de vida diferente do que a so- ciedade capitalista e os socialismos de estado ofereceram para a sociedade “civilizada”. Nós somos escravizados, vendemos nosso tempo para bancarmos nossa forma de vida, escravos do trabalho, do calendário, do relógio, da deadline, dos sistemas de financia- mento. Indígenas sabem que aprendem com o tempo e com natureza, e na natureza tudo tem seu tempo, tem o tempo de cada fruta e de cada animal, tem o tempo de aprender, o tempo de trabalhar e de passar a sua sabedoria. Nas cidades perdemos esse sentido de tempo porque vivemos no tempo do relógio, no tempo dominado pelos sis- temas de controle. Indígenas não são especialistas obsessivos, porque eles dão conta de todas as circunstâncias e necessidades das suas vidas, são agrônomos, artesãs, constru- tores, psicólogos, professoras e nutricionistas. Apesar de estarem com suas vidas amea- çadas há muito tempo, e muitos terem que trabalhar para sobreviver, sofrem com essa situação, porque sabem dessa outra vida possível, e sonham com ela. A gente também sabe, mas estamos muito mais bloqueados do que eles pela excessiva identificação com os valores da modernidade e há muito mais tempo.

Muitos movimentos de êxodo das cidades para o campo tem acontecido nos últimos tempos, no mundo inteiro. Essa vontade de voltar a viver comunitariamente nos campos, nas florestas, nos rios limpos com qualidade de vida e sustentabilidade é uma resposta ao fracasso dessas promessas modernas que falamos acima. Porque já se sabe que esse modo de produção e consumo excessivo assim como escravização do tempo causa males irreversíveis ao Planeta Terra, à ecologia de modo geral e à saúde humana. Então essa reação é necessária e bem vinda, e talvez ajude-nos a pensarmos em novas formas de vida e relação para além do individualismo e competição apregoada pelos sistema de controle do capital. Nesse sentido, temos muito a aprender com as comunidades indí- genas, tanto no nível da sobrevivência, como no nível da resistência.

Mircea Eliade escreveu que, para as sociedades primitivas, o tempo é circular em relação ao nosso tempo linear. Como podemos entender o “progresso” ou a evolução em uma sociedade onde o tempo é circular?

Se a noção de tempo não é linear, talvez chamaríamos não de circular mas de espirais, como Deleuze e Guattari falam no livro Mil Platôs… Espirais por todos os lados que se encontram e também se afastam. Através de técnicas de sonhos, de uso de plantas enteógenas, de rituais de intensificação de consciência, de processos imersivos coleti- vos, pode-se chegar a essa compreensão com mais facilidade. Essas tecnologias foram sequestradas de nós em nome dos monoteísmos e depois do capitalismo. Pensamos que essa relação de voltar para o campo e para o reflorestamento, para a água limpa, traz consigo também a necessidade de ampliar esses estados de compreensão de que essa vida existe também em outros formatos, que não o dos apartamentos fechados e o di- nheiro no banco. Como fazer isso acontecer de modo mais efetivo e em maior número ainda é um desafio para todos nós. Mas o próprio planeta vivo que habitamos tem lá suas formas de nos convencer disso, para além das nossas decisões lógicas e conscien- tes. A identificação com o niilismo, com o nada, é algo que se perpetuou na Europa e foi levado para suas colônias. Todas essas tecnologias de tempo e espaço vividas por muitas culturas foram restringidas, por serem tidas como exóticas, supersticiosas ou crenças infundadas. Mas hoje em dia está tendo um movimento maior de dar-se conta da perda dessas memórias.

A evolução ou progresso em uma sociedade circular (ou como gostamos de pensar, es- piraladas e para todos os lados) nos levaria a outra ideia de futuro. Primeiro, a ideia de evolução e progresso seria posta em questão, pois a mudança estrutural das socieda- des poderiam ocorrer, sem necessariamente constituir a univocidade que o capital cria, junto com o seu desejo de controle e império sobre as mentes e corpos do planeta (e outros planetas). E aqui só poderíamos especular:

Na Amazônia por exemplo, os distintos grupos indígenas estavam no meio de um processo de fertilização e mudança de terra, queimando lenha para criar uma camada de terra preta, criação humana que hoje em dia cobre um terreno dum tamanho duas ve- zes maior que a Espanha. Nessas terras pretas, os indígenas provavelmente seguiriam vivendo uma vida dentro das mesmas culturas e as mesmas tradições que antes, mas agora numa floresta baseada numa terra mais fértil. Então a mudança não seria uma “evolução” para algo novo, mas para uma variação da mesma vida, com melhores condi- ções. Tempo em espirais como falamos acima, “same but different”.

Nos países nórdicos e outras culturas clássicas pré-cristãs, o conceito da história não era relacionado à evolução, mas sim à criação de um mundo perfeito, que depois entraria em decadência até chegar ao seu fim, até ser substituída por outra criação. Uma concepção cíclica da história.

Nos Andes pré-hispânicos se tinha um grande arsenal de conhecimentos astronômicos, que ligavam montanhas e mediam o solstício de verão e de inverno, por exemplo, e co- nectavam através da luz do sol os topos de montanhas para medir clima e temperatura. Isso era uma tecnologia que estava sendo desenvolvida, e no topo dessas montanhas foram construídas igrejas católicas, que se apropriaram dessas tecnologias.

Ou seja, no campo especulativo há várias teorias sobre como seriam as Américas caso não tivessem chegado os colonizadores, ou como seriam as sociedades vikings caso não tivessem sido submetidas pela ortodoxia católica monoteísta, ou os beduínos do mun- do Árabe caso não tivesse surgido o Islam. Ou seja, o monoteísmo é grande responsável pela intrusão desse sistema temporal linear, obsessivo pelo conceito da “evolução”.

No livro “Tecnoxamanismo”, Fabiane M. Borges menciona Fabian Ludueña e suas teorias sobre “comunidades espectrais” – seres imortais como Buda ou Jesus, cyborgs e talvez espíritos … Somos capazes de nos comunicar com eles? Eles são arquétipos?

Antes de nos perguntarmos como poderíamos nos comunicar com esses arquétipos ou entidades, é preciso mudar a pergunta para algo menos objetivo, porque nossa tendência é humanizar e domesticar o que não é humano.

Estamos vivendo em um mundo que está produzindo inanimação para conforto e tra- balho domesticado dos humanos (assim como de todo o planeta) por um lado, e por outro lado presenciamos a insurgência do meio ambiente, que costumávamos ver como variável mas inanimado, ou domesticável em grande medida. Em consequência das mudanças climáticas, destruição da biodiversidade em favor das monoculturas do agro- negócio e poluição industrial (antropoceno), essa “natureza” tem se mostrado cada vez mais animada e cheia de movimento e singularidade, nos destituindo do lugar de donos do mundo e nos colocando numa outra relação, mais amedrontada, mais aterrorizada com o porvir. Então as especulações sobre essas entidades inanimadas e sua força de articulação ecológica e também políticas em seus termos, nos traz de volta às questões animistas profundamente antigas, mas também profundamente futuristas. Como nos diz Hilan Bensusan em seu livro “Linhas de Animismo Futuro” de 2017, esse ancião ci- borgue (o animismo) retorna porque a “crise com o ambiente é a crise com a naturalidade. Ela faz surgir um conjunto de incômodos com a constituição teológico-política que tornou popular agrupar todo o não-humano assim como a fisicalidade humana sob o apelido de “natureza” (…) Descola considera que o naturalismo, que aparece na Europa entre os séculos XVI e XVII, é a maneira de lidar com os outros típica do discurso Moderno – aquilo que não é humano é meramente parte da natureza”. Essa maneira equivocada de enxergar “os ou- tros” tem suas consequências, e estamos sendo forçados a compreender isso diante do que se chama de “intrusão de Gaia”.

Também a teoria perspectivista de Eduardo Viveiros de Castro nos diz que, para os ameríndios, tudo o que existe é humano, a pedra, o rio, a água, as nuvens, só que usam outra roupagem, outra natureza, mas que por causa da humanidade que existe em to- das as coisas, é possível se comunicar com elas, em linguagens que não necessariamente precisam ser orientadas pela linguagem verbal, intelectiva. Ou seja, se trocarmos nossa estrutura de pensamento e relação com “os outros” para uma estrutura que incorpora as teorias animistas por exemplo, essa comunicação se expande. Nos rituais imersivos mais profundos, com ou sem uso de enteógenos, é possível passar por essa experiência. Também tem pessoas mais sensíveis que são mais conec- tadas animisticamente com seres não humanos, ou com seus ancestrais, que são mais dadas as viagens temporais, por guardarem ainda o germe dessas possibilidades.

No caso dos arquétipos ou entidades da literatura e da mitologia sempre teve muitas narrativas sobre a comunicação com eles, e mitos e outras narrativas de deuses e ou- tras entidades muitas vezes funcionam e funcionavam como padrão dos rituais – isso acontece, por exemplo, dentro da cultura yorubá, o povo africano que na atualidade mora na África ocidental (Nigeria) e por causa da escravização foi dispersado numa forte diáspora nas Américas, criando outras vertentes desses costumes rituais, como o candomblé no Brasil.

Como se dá essa relação da passagem de uma ficção para a nossa realidade atual, é fonte de várias narrativas, mas temos na tecnologia por exemplo, inúmeros aparatos eletrônicos ou aplicativos que nos ajudam a entender isso. Por exemplo, as psicanalistas que são robôs com inteligência artificial, como Elisa, que consegue manter uma análise baseada nos dados informados pelos pacientes, e assim vai aprendendo a se comunicar mais especificamente com cada pessoa. Ou os jogos eletrônicos de realidade virtual 3D, que nos ajudam entender a incorporação, já que se entra em outro corpo, e se assume outro ponto de vista, outras habilidades corpóreas, assim como os videojogos populares com narrativas baseadas em várias mitologias onde o protagonista ou jogador vira uma entidade ou herói dessa mitologia.

Enfim, são exemplos que nos ajudam a pensar nessas comunicações com as comunidades de espectros. Vale dizer que o livro “A Comunidade dos Espectros” de Fabián Ludueña Romandini é muito inspirador, e traça com eficácia uma relação entre transhumanis- mo e catolicismo renascentista, ou o compromisso da ciência capitalista em produzir o Deus imaginado nessa época.

O evento Dome of Visions, realizado na Dinamarca, em agosto, foi uma performance ou conferência?

Na Dinamarca fizemos um pequeno encontro na universidade de Aarhus no laborató- rio Digital Living Research Commons no qual falamos um pouco com os pesquisadores sobre tecnoxamanismo e práticas que envolvem rituais DIY, cosmogonia livre, ances- trofuturismo, colaboração com comunidades indígenas e quilombolas e sistemas de mudança de perspectiva com realidade virtual. Carsten Agger foi responsável pela nossa conexão com o núcleo de pesquisa.

No dia seguinte dedicamos um dia inteiro ao tecnoxamanismo na geodésica Dome of Visions localizada na zona do porto da cidade, com conversas em torno de temas re- lacionados a ancestralidade e tecnologia. Logo teve apresentação de algumas perfor- mances rituais, e no período da noite fizemos uma jam session de noise, que também podemos pensar como um ritual do it yourself.

PROGRAMAÇÃO

https://tecnoxamanismo.wordpress.com/2017/08/06/technoshamanism-in-aarhus-rethink- ancestrality-and-technology-2/

RESENHA DO EVENTO

https://tecnoxamanismo.wordpress.com/2017/08/17/review-tcnxmnsm-in-aarhus- denmark2017/

Esta revista foi editorada no formato 210 x 297 mm utilizando as fontes Quicksand, Blogger Sans e Calluna.

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