Relato poético-filosófico-amante sobre a série de eventos de resistência e solidariedade à saúde Pataxo

Por Raisa Inocêncio

De antemão esse é um relato de agradecimento à todes que puderem nos ajudar e compartilhar momentos encontros afetos sobre o que estamos vivendo atualmente.

É uma guerra. Sabemos disso. Podemos ignorar e viver nossas vidas pessoais em suas satisfações das mais genuínas e amorosas. Entre esse amor do cotidiano que resiste à tristeza cívica e a sistemática prática necropolitica, é uma guerra cultural, subjetiva, de modos de vida.

Caro leitore, cara leitora, perdoe minha filosofia que chega com conceitos e decisões, para os que não sabem, ataques diários não somente contra os povos originários, mas o Brasil que se encontra agora é a realização de um fascismo religioso, militar e, assustadoramente, hipócrita. Vende o Brasil dizendo ser nacionalista. Vende “mulheres, negros e indígenas” dizendo proteger. Estúpido e consagrado à “vencer” como os americanos, segue um modelo abertamente capitalista destruidor.

Breve, não vou me alongar no porquê é óbvio a necessidade de um engajamento atual e global, está aí por todos os lados. No caso brasileiro, gostaria de pontuar duas perspectivas de luta e resistência e explicar porque elas juntas congregam forças também a médio e longo prazo, no caso, a campanha pela saúde Pataxó e celebrar a inauguração do jardim Marielle Franco.

Ainda que não saibamos, mas o fim do mundo está aqui, é hora de imaginar que vamos criar mundos, novos mundos. Morre um mundo, viva o mundo!

Organizar eventos é sempre muito difícil, porque sabemos que os erros e problemas vão acontecer, fazemos na gambiarra, na medida que temos pouca infraestrutura e quase nenhum dinheiro, que pedir ajuda requer audácia e confiança, que a necessidade é muito mais séria do que imaginamos.

Nesse intuito, participando do comité Marielle Franco e da rede de arte e ativismo do Tecnoxamanismo, de uma maneira gigantesca como o Brasil é, organizamos cinco eventos, duas oficinas e três festas de resistência, em Toulouse e em Paris.

As oficinas foram dadas pela artista Marie Carangi (Teta Lírica), que trabalha o corpo como meio de expressão, dispositivo de emancipação e criação de outras formas de pensar e agir, mudando a lógica coisificadora do corpo, de quem, por exemplo, aos seios vê somente o utensílio de alimentação, e ainda um dispositivo de choque cultural que quebra, rompe, provoca, causa, chega chegando. A oficina toma uma criação de um ritual, corta a meia-calça, colocar no corpo, respirar, tocar, sentir, dançar com o Téremin, mostra-se o corpo com outros sentidos…

Lembre bem a guerra é também sensível e estética (outra palavra difícil da filosofia, mas que em alemão é sinnlichkeit e também significa sensualidade, amo).

Em seguida, tivemos as festas, primeiro em Toulouse, no espaço Hangar, quero pedir perdão a casa e aos músicos porque não dei a atenção devida, estava entre a cozinha e as conversas de estratégia. Teve um público bem jovem e pessoas que vieram para conversar sobre o que vamos fazer a partir de agora ? E como ? Da maneira autônoma e autogestionada para que nós também não fiquemos congestionados com demandas e forças contrárias da vida, temos também uma vida pessoal que ama e que come.

Por isso, e mais uma vez repetindo com o perdão do uso do palavrão, é Resistência Pôrra Gostaria de anunciar formalmente que conseguimos um financiamento para ajudar na campanha Pataxo, ainda falta muito, mas esse projeto de três anos vai nos permitir uma tranquilidade estratégica, fundamental para que possamos continuar. (Mais infos inbox, porque fascistas também atacam em rede).

Em breve, faremos uma convocatória para quem quer ajudar seja no virtual, design, tradução, etc e também desde a Europa, porque sim temos aqui MUITOS privilégios e ajudar a resistência no Brasil é no mínimo coerente com a boa vida que temos aqui…

Organização e estratégia é o que peço agora.

Porque tem muita gente com depressão, é latente a quantidade de gente que eu vejo sem ânimo nem pra viver nem pra ajudar projetos de resistência no Brasil, continuamos ajudando essas pessoas também, mas – perdoa o sincericídio – os povos indígenas também estão morrendo, a juventude negra também está morrendo e nós que temos privilégios…

Bom… Privilégios inclusive de ficar tristes…

Por isso, sem nenhuma culpa (cristã ou não), é através do carnaval, da festa, do banquete antropofágico, que ritualizo este exorcismo da depressão da tristeza cívica da política da morte, com conversa com diálogo e com festa, sim, porque é isso que eles querem que nós deixamos de viver, de amar.

Amar é um ato político. Colocar-se no lugar do outro. Levantar o bumbum para ajudar o outro. Mexer o rabo pra sacudir a alma. Dançar até cair no chão.

Na segunda festa, em Paris, que foi no DOC (espaço de arte e ativismo), exibimos a obra audiovisual do artista Jonathas de Andrade “O Caseiro” e também tivemos uma mesa redonda cujo tema era Arte e Política, contamos com Felipe Ribeiro, Nina Velasco e Calixto Neto.  Felipe contextualizou desde 2013 até a Lava-Jato, Nina puxou uma história da arte contemporânea deste Helio Oiticica até Barbara Wagner, sobre porque é importante também pensar a arte como meio de expressão e luta de existência.

Dito claramente o fascismo nos quer mortos, sem vida mesmo vivos, sem direito à existir, mesmo sem direitos, somos escravos por eles.

Calixto terminou a mesa com uma carta no tom que deve ser sobre o que é essa violência estranguladora, lembrando que Agatha era uma criança e que o genocídio está em plena força agora.

Não teve tempo para um debate, infelizmente não teve tempo. Seguimos para festa com o concerto de Teta Lirica junto com a DJ Cigarra, que simplesmente foi anarcotetônico. De repente, às vezes não é de conversa nem de debate que precisamos, mas simplesmente, de um silencioso desabafo e um exorcismo feroz.

Para terminar, a segunda festa foi no espaço la Colonie, no mesmo dia da pré-estréia de Bacurau, e, por isso, não tivemos uma grande presença brasileira, porém a sala tava cheia e foi bem legal a mesa redonda (que dessa vez teve debate em seguida e que foi ótimo!) com Silvia Capanema, Flora Mangini, Fabi Borges, Cecilia Cavalieri.

De improviso, comecei pela ideia das ações feitas em Paris, com Silvia falando sobre a inauguração do jardim Marielle Franco e todo o entorno de resistência acadêmico-poética-politica que é Marielle Franco, não é somente metáfora ou simbolismo que ela é uma semente que brota e que é plena de força e potência de luta.

Depois Fabi Borges falou sobre a rede do Tecnoxamanismo, em seguida da campanha e da situação da saude indigena, também apresentando algumas das lideranças indígenas atuais, Sonia Guajajara, Raoni Krenak, Sonia Barbosa Guarani, Valdeci Veron Kaiowa e Anapuaka Tupinamba. Estas lideranças têm despontado nas redes pensando politica e filosoficamente a questão da ecologia e do fim do mundo.

Cecilia apresentou um apanhado de dados sobre as empresas, francesas e europeias, que atuam na direta destruição da Amazonia, tendo em vista uma contextualização e em seguida apresentou como porta voz de luta e resistência duas cartas de amigos que estão no Rio de Janeiro, terminou sua fala com a apresentação do projeto Lanchonete de Thelma Villas-Boas.

Flora Mangini, como que voltando para o que acontece em Paris, terminando a mesa sobre como essa luta é uma luta anti-capitalista, que é isso que nos conecta em vários pontos.

Dançamos e dançamos, porque a felicidade é a prova dos nove.

Está só começando, gostaria de agradecer à todas essas pessoas por tudo, pelas conversas, pela energia, pelo foco, por tudo, um brinde de saúde e de força como à Bacurau, comuna de resistência!

Fotos da festa do dia 21 setembro por Rafael Frazão : https://www.flickr.com/photos/144294648@N06/albums/72157711046135957/page2/

Um beijo bem grande à :

Aos musicos Rita Macedo, Daniel Zé, Zé Lauro, Fawzi Berger e Virginia Bm.

Os convidados da mesas redondas: Felipe Ribeiro, Nina Velasco e Calixto Neto; Silvia Capanema, Flora Mangini, Fabi Borges, Cecilia Cavalieri.

Os artistas :  Teta Lirica, DJ Cigarra Agatha e Jonantas de Andrade

Hangar : Ernesto, Marie et Simon especialmente

DOC : Thibault especialmente

Tecnoxamanismo : Isabella Aurora, Rafael Frazão, Marina de Morais, Ariane Stolfi, Fabi Borges

Comité Marielle Franco : Stéphanie, Julien, Virginie e Rita

Pessoal lá de casa que ajudou -perdoa o palavrão – pra caralho : Abdo, André, Chloé

Os alunos do mestrado Erasmus Mundus Europhilosophie

E meu orientador, porque sem ele nada disso é possível, Jean-Christophe Goddard

Texto de Raisa Inocêncio

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