Pornoklastya em Diário de Viagem: Parteiras, curandeirismo, e sincretismo violento na terra do descobrimento: II Festival Internacional de Tecnoxamanismo por Sue Nhamandu.

Diário

Intro:

1§ A expulsão dos seriados na década de 80 é hoje uma tragédia repetida equivalente dos indígenas sendo desterrados pelo agronegócio. A memória do meio ambiente está na resistência da cultura dos povos. Um povo destituído de sua cultura, e do território em que pratica-la, expulsos de suas terras para as favelas das grandes cidades tão aumentam uma massa manipulável de pessoas muito pobre, mas meritocrata, que sobrevivem nas periferias.

2§ Hoje não temos um Chico Mendes, temos milhões, milhões de conscientes da luta contra os latifúndios. Os corpos vulneráveis ​​sem cuidado de si e do outro, somam multidões de minorias. É só entendido que a omissão a escolha da “justiça” semper conivente com os dominantes, para praticarmos novas ficções. Falta opinião. E engajamento com a justiça das causas defendidas, quando falamos de corpos falantes vulneráveis.

3§A pornoklastia se mover na luta sócio ambiental, como o ecopon de Anne Sprinkle, não por acaso, são corpos como margens que invetarão soluções para velhos problemas. Como um devevir perra de agenciamento e crises.

4§Aqui em território tupiniquim o vínculo da pornografia no tecnoxamanismo, num movimento claramente atropofágico, não é apenas uma busca de ancestralidade nos conhecimentos das partes, com uma contrapartida de informações sobre uma contracepção natural cientificamente selada, mas uma consciência do cuidado de si Do outro como uma ação intimamente vinculada com Gaia, uma delicadeza dos corpos falantes vulneráveis ​​e uma insurreição performática diante do antropoceno.

5§Todavia este texto tem uma função clara, ele é indistintamente um diário de viagem, caneta e papel uma revelação do sol e da chuva, Uma tecnologia primitiva de criação da tecnologia dos signos, uma viagem espiritual ao sincretismo violento do II Festival Internacional de Tcnxmsnm na Aldea Pará em Caraíva. 40 dias de mergulho em comunidades, cultura, pertença e herança pataxó.

Pós-diário

  • 1 A única tecnologia de registro que atinge o padrão II Festival Internacional de tecnoxamanismo para um diário de viagem, uma caneta preta, dois lápis e um apontador, tinha uma missão em mente conhecer como mães e suas linhas, primeiro de rapé, depois tudo ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,. Era um festival de possibilidades, mergulhado num “sincretismo violento” que me levou pra uma viagem dentro de mim, dois sonhos e fazer curandeirismo.
  • 2Não gosto de conviver muito tempo com muita gente, assim fugi muitas tardes pra casa de Currumuxa Jabuticaba, cujo camping nos abrigava, e onde me sentia acolhida bebendo tarrão com açúcar, ou chá de sassafrai e ouvindo músicas e histórias, a hospitalidde pataxó está vinculda A filosofia do riso e das resenhas que acolhe a todos- às vezes me escondia na barraca e escrevia por horas- .. Mãe Jabuticaba é quem guarda uma ciência do Kawin, que não gosta de risada, por isso é feito em solidão, com mandioca Já cozida, que tem um fermentar, sentimento de toma-lo sensações de uma ayahuasca, porém mais suaves, mais amorosa como uma Jurema, mas com menos efeitos de cor e claridade. Foi com ela que aprendi o primeiro rapé. Cada caderninho é fruto de muito tempo ouvindo estórias que me resgatavam parte da ancestralidade já tão perdida.
  • 3Foi indo uma manhã para uma casa que me caiu uma lagarta verde de patinhas vermelhas não braço, lagarta de caju, era tão linda que demorei um pouco tirá-la do braço, má idéia, era venenosa começou queimar tudo por onde estava caminhado, corri Pra minha bolsa de hipocondríaca limpei com álcool de arnica e passei um anti alérgico de pomada, queimou mais. Corri até Currumuxa Jabuticaba que me pegou um pote de uma pomada verde que em meio minuto tirou toda dor. Ao cuidar da queimadura de lagarta em meu braço com uma pomada de feitura sua, mãe Jabuticaba disse, uma outra menina que me chamava champanhe Currumuxa, é uma mãezinha, um sentimento que ganhe uma maçã naquela hora, o fogão a lenha, o tarrão (café) Com açucar. Foi na primeira semana na aldeia, depois das barracas terem encharcado com uma chuva trazida pelo Awe de recepção.
  • 4A primeira coisa que descobri com uma tempestades tropicais noturnas não Sul da Bahia. Me senti orgulhosa, já que até então vendo o mundo de ação ao meu redor estava me sentindo meio inutil com meu caderninho. Descobri ali -na terra do descobrimento-, que um caderno e filosofia são menos úteis que uma boa receita de pomada de ervas e uma fantasia com teto quando o assunto é sobrevivência, passei um todo dia de tarde recolher os galhetos caidos, para garantir uma Fogueira noturna, que em caso de chuva ou mosquitos, me traria conforto, afinal um dos temas de evento era antropoceno, Acho que Viveiros de Castro tem razão quando diz que só os índios sobreviveriam a uma catástrofe mundial. Mas uma coisa que eu sei fogo é um incêndio em dias quentes, e trazendo um afago em dias de chuva, nosso cérebro mamífero límbico se alimenta de fogo, como o neo-córtex de palavras.
  • 5 Assim migrava de casa de mãe em casa de mãe, de parteira em parteira, recebendo (e aprendendo) benzas e rezas, pra minha depressão que todas viam só de me olhar, mesmo eu sorrindo e me benziam, bem como o pajé que na Abertura da tenda de cura me deu uma reta longa e me explicou que por causa de muita dor no meu coração, resgatando minha ancestralidade e aprendendo sobre plantas de cura e rezas, e cantigas, por muitas tardes, numa peregrinação mergulhada no festival, mas distante de Indihis, na companhia cuidadosa das Currumuxas. O senso de comunidade pataxó era um flashmob que contagiou todos os presentes, mais de mil e quinhentos quilometros longe de onde nasci e cresci, na terra de meus antepassados, sentia paz, me sentia em casa, uma pequena barraca para dois, com uma comunidade Cheia de cozinhas acolhedoras com café e histórias,

6§ Se pataxó é bom de rir, é também um povo que chora, e perguntar a cada mãe, cada parte é o que é melhor para quem chora demais, uma era de resposta: “chorar, minha filha, deixa chorar”. Não se dissimula a vista de um lado, os pataxós não se esconde no porão do ser. Estar executando um diário de viagem em uma aldeia com pessoas de mais de 10 países é como parir um Catatau. O resultado mais mágico de um mergulho é ineficaz, pois é invisível para os olhos, mas eu posso deixar pro caro leitor como o ponto de vista das mães com algumas das poesias e intervenções linguísticas típicas da região pura Guimarães Rosa:

 

Currumuxa Jabuticaba

Maejabuticaba

Foto: Rafael Frazão

Quioo de galinha, Manjericão, alfazema, vai no rapé e no lambedor, saião vai so no lambedor. Mas também é bom pisar o sumo e botar pra felver, depoise coa, mistura sem óleo de coco pra pomada. Vai brotinho de aroeira, boldo, massafetti. Vai não tacho, na lenha, secar, pra depois pisar e fazer o pó Massagem ou broto de embaúba para puxar pus, e Jacapinha pra picada de cobra.

 

Como inventar mundos? Nota mental

 

Rape de Currumuxa Jabuticaba 

Quioo galinha, alfazema, mastruz, bola de frade para folhas, massafetti, brotinho de aroeira. Seca no tacho na lenha, pisa e faz o pó.

Pomada

Rape de Currumuxa Jabuticaba Quioo galinha, alfazema, mastruz, bola de frade para folhas, massafetti, brotinho de aroeira. + Jacapinha, saião, boldo no óleo de coco

Lambedor

Idem + sasafrai no mel

Insenso

Capim de aruanda, com amescla.

Kawin

Descasca mandioca, cozinha, rala. Mas você não precisa de uma risada, porque o kawin tem uma ciência

Remunganha ta na mata

Querendo manguta

So la que pego

Foi um tamanduá

Então, não pode ser imanguta

Biraifumo

Menta, capim de aruand, alecrim, noz moscada, salvia.

Girassol torrado com rizzo pra febre

 

Licor de Mangaba

Pisa mangaba, faz o suco, é tão ponha pra felver, pra apurar, mastigar ele bem não moedor de cana e coar no saco, não pode bater uma massa para fazer o licor.

Kitoko quer manguta iamã (vozinha a criança ta com fome)

‘Embarquei no resgate da minha ancestralidade, não quero me distrair, estou aprendendo a ser curandeira, queria ver um parto. Tenho que descobrir como chegar a uma casa de mãe Roxa, colocaria o celular pra despertar não é morrer com uma chuva “nota mental

Artemisia é bom pra sonhar

Nomayasu Pahú Bons sonhos

Agente precisa de um território para nossa cultura

Mãe Roxa (Ararimã-Edelzita dos Santos)

Maroxa

Acervo pessoal

 

Vou à casa de mãe Roxa caminhando da casa de sua filha, acompanhada de sua neta no passo, e de João, seu netinho, nos braços dela – ele não é de dar confiança pra indirry-. Cerca de 40 minutos de caminhada depois da ponte, do lado direito, afastado tanto do centro de pra quanto de Barra Velha, no intercaminho. Ao terminar de subir o pequeno caminho depois da porteira, cercado de ervas, chegamos ao seu quintal com mis ervas, e algumas arvores frutíferas. Passamos poucas tardes conversando, na verdade era um silencio de ambas, o som ao redor, e então as lembranças dela enchendo a tarde  de partos e ervas, acompanhando do ruindo do lápis sobre o papel.

Alfazema (uma arvore semelhante a anacalita), manjericão, alve santa (mastrusso), quioo cravo, fumo.

 

Banho

Preto velho, junco, comigo nenhum pode, bola de frade, quioo cravo, sal: dia de sexta-feira

 

Banho Pra dor de parto

Artimisia, folha de mangá, mentrasti, folha de fruta pão.

Massagem pra dor de parto

Mastiga ou sumo da artemísia pra assentar o bebe

Massagem depois do parto

Com summo de folha de aroeira

Chá de fé da terra amarga desincha o útero, ajeita por dentro

Banho e chá de fé da terra

Boldo com gerbo antes do café é bom pra dor

Maria preta com rizzo é purgante pra anemia

Cachimbo é capim de aruanda com tabaco.

Um cesto com amescla em dia de cesta por defumar a casa

Agua com amescla pra lavar bixiga e rin

Óleo de amêndoa assenta o bebe, abacaxi e criança que nasce de bunda, tem carca por baixo e empurrar.

Cozinha o ovo, coloca o sal em cima da gema oferece pra nossa senhora do bom parto e bebe o ovo quente

Mastruz com rizzzo é bom pra vere

Bola de fradi amarra barriga, não pode beber

Vassourinha de santa maria é bom chá pra pós

Quioo cravo no estomago

Fazer de 3 em 3 dias depois de 1 em 1.

Arrudinha do mato é boa pra menstruação com pimenta cuminho

Bater folha de amescla com aroeira sem leite da manha é bom pra dor

Manjericão é bom por câncer

Preto velho e um banho de sexta.

Preto velho vem da roça

Vem cansado

Toca fogo no cachimbo

Larga o cabo do machado

 

Purgante de rizzo com favaquinha limpa o útero depois do parto.

Fé da terra é bom para pra resguardo quebrado

Babosa é bom beber pro xixi do homem, bom pro cabelo e queimadura, com boldo e abacate é bom pros rins.

Urucum é bom pra sapinho

Guaco saião e erva de santa maria é pro pulmão

Placenta: companheiro

Gêmeos fraternos: mobaça

Só dar água pra gestante com tição de carvão aceso na água antes da hora que tá em parto

(na escola a professora as alunas do ensino médio acrescentaram:

tá di boi ou comoanheiro chico: menstruação

pinguelo: clitóris

Chá de guaru  pra quem menstrua a primeira vez, especialmente se um homem fizer o chá pra cólicas.

Bola de fradi pra não engravidar)

Pahoré: sonhador

Anere xorã sempre guerreiro

Rapé de mãe Coruja

Maecoruja

Foto: Rafael Frazão

Manjericão, mastruz, erva cidreira, olho de aroeira, catinga de mulata, arruda, alecrim, massafetti, imburana, nanoscarda (noz moscada)

Adeus sodade sodade

A despedida só é hoje]amanhã

Não pode ser

Esta na hora da partida

Adeus vou poder dizer

Dorme neném

Tenho o que fazer

Tem roupa pra lavar

Comida pra cozer

Piranha diz que chora o piranha deixa chorara o piranha

Bota a mão na cabeça

Oh piranha

Faz um remelecho

Oh piranha

Bota a mão na cintura

Oh piranha

Faz um sapateado

Oh piranha

Diga adeus seu namorado Oh piranha

Diga adeus seu namorado Oh piranha

Como é que tem passado?

Dá uma umbigada Oh piranha

A nódia da entrecasca de caju e de aroeira é cicatrizante de machucados.

Cardo santo com rizzo mata pneuminia torra, ai bate que nem batendo punheta pisa mesmo no pilão.

Algodão é bom pisar, por pra serenar e beber o chá pro cansaço

Favaquinha também tira cansaço

Nega mina o banho é bom pra derrame

Quenta maranhão também

Casco de tatu peba torrado e pisado também

O café beirão também tudo bom pra derrame e cansaço.

Purga do campo o banho é bom pra lergia, e beber limpa o sangue pra alergia também caga as tripa limpa até a boca do cú.

Massafeti é bom pra dor na barriga

Carrapicho é bom pra madinga feitiço.

Chá de hortelã miúdo com mastruz prós vermes.

Guiné é bom para o feitiço mandinga.

Teve uma cabana na caia de Zélia e Fermao, Fermao é o Ogan da aldeia Para. Fiz uma muquiça com dois camarões sem tomate sem cebola sem azeite sem limão . Apanhar de burduna não deve ser bom não.

Ramear faz parte de um Awé. Bamos ramear, solo uma rameada, afinal somos o no somos índios? Pataxó muka mukau muka mukau muka mukau

Pataxó Mayon Herne ou herdade mayonweremere Herton herton herton pataxó

Bons sonhos Pataxós -por Sue Nhamandu

Uma canção de kawatã-coração

Nomaysu pahu

Nomayasu pahu

Cumurita

Borocumã 4x

Cumurita Jocana baixu

Cumurita kitoki baixu

Cumurita kakuçu baixu

Cumurita Currumuxa

Borocumã 4x

Cumurita indirry baixu

Cumurita paheré baixu

Borocumã 4x

Nomayasu pahú, nomayasu pahú.

 

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