Comentários sobre o II Festival Internacional de Tecnoxamanismo na Aldeia Pará Pataxó.

Por Fabiane M. Borges

Fotos – Rafael Frazão

English Version – https://tecnoxamanismo.wordpress.com/2017/01/23/comments-on-the-ii-international-festival-of-technoshamanism-in-the-aldeia-para-pataxo-village/

dsc07064-308(Awê (ritual) de abertura do Festival)

Agradecimentos

Primeiro de tudo quero com esse texto agradecer o povo Pataxó da Aldeia Pará pela incrível hospitalidade. Por nos convidar para fazer o festival na Aldeia, nos fazer sentir tão bem em suas casas, por compartilhar com a gente sua cultura, sua memória musical, sua língua, suas histórias, seu território, sua culinária, suas gargalhadas, suas reuniões, suas lutas por território, a sabedoria de suas lideranças. Também aos guerreiros e guerreiras, professores e professoras, estudantes, anciões e anciãs, jovens e crianças da Aldeia Barra Velha – a Aldeia Mãe – pelo apoio ao evento. Nos sentimos honrados. Com uma sensação de pertencimento, de que criamos comunidade, de que fizemos “amigos para sempre1”.

Também quero agradecer as pessoas que vieram para o Festival, que partiram das suas casas, seus países, seus Estados, suas Aldeias para estarem sete dias na imersão tecnoxamânica. Contamos cerca de 14 países, 7 Estados brasileiros e 10 Aldeias indígenas. Apesar de não ter passado de 100 pessoas o número de participantes de fora da Aldeia (que foi o número perfeito), tinha gente de todo o canto. Essas pessoas foram corajosas, generosas, curiosas e muito sensíveis e colaborativas com as propostas do Festival. Tinha gente que nunca tinha vindo ao Brasil e se assustou quando explicamos o percurso, perguntando: Atravessar dois rios? Estradas de eucalípto? Atravessar duas Aldeias indígenas? Mas mesmo assim vieram e encontraram seu caminho até a Aldeia Pará.

E também quero agradecer especialmente as pessoas que colaboraram com a organização do festival através do crowdfunding, da vaquinha, que pagaram suas inscrições, que nos ajudaram na logística da (des) organização do festival, com ideias, emails de divulgação, cartas convite, venda e compra de camisetas, siregrafia, tradução de conteúdos, edição de vídeo, com o site, com o paypal e bitcoin, com a rádio, a baobáxia, os banheiros secos, a agrofloresta, a cozinha, os carros alugados, as oficinas, as festas para arrecadação de fundos, e tudo isso. O trabalho dessas pessoas foi fundamental para que o festival acontecesse.

31518378682_f7458005ac_o (Na abertura da Tenda de Cura da Casa de Akurinã e Regina)

Contando do festival

Sempre difícil falar sobre um acontecimento. Então começo assim, como quem não quer parecer passional. Falar com ternura talvez seja falar das lembranças fortes. Então aqui elenco algumas em ordem aleatória:

Os mutirões. O mutirão para construir a arena antes de começar o Festival, para construir a casa de barro do Quijeme Cultural, para terminar a cozinha, para fazer os fornos de barro ou a limpeza do camping. Monte de Pataxós juntos fazendo teto de palha de coqueiro, erguendo os paus à pique, colocando as lonas, abrindo as valas, fazendo os banheiros, colhendo as plantas no lamaceiro, as trepadeiras para grudar nos postes. A Zélia caiu de bunda na lama. Todo mundo morreu de rir. Duas coisas são marcantes entre os pataxós, morrer de rir e falar e ouvir devagar, sem pressa. O Rodrigo Krull falou uma coisa ao voltar do festival que achei uma síntese: “maravilhosa a experiência com um povo de paz, mas que está sempre pronto para a guerra”. A guerra é constituinte desse povo. Pataxó é povo guerreiro, como diz inúmeras músicas como essa: “Eu tava andando na mata, para que mandou me chamar! Eu sou um índio guerreiro, um índio guerreiro de Orubá!!” Mas não vivem na cultura da guerra, vivem na cultura da paz. Rir, ouvir e falar com calma e atenção é prioridade.

Mexendo no HD da Memória Pataxó

30854427863_0d0031c44d_o(Festa em volta da fogueira no dia que acabou a luz)

O  festival mexeu no HD da memória Pataxó falou Tury, indígena pataxó que morava na favela da Maré no Rio de Janeiro, organizadora da Ong Mães da Maré, que foi candidata a Cacica da Aldeia Barra Velha. Tirou o terceiro lugar. A votação foi enquanto estávamos lá. Ela falou isso durante os encontros do sagrado feminino propostos por indihis (não indígenas) participantes do festival, um encontro só de mulheres. “Voces viram o que está acontecendo aqui? O Festival está mechendo no HD da memória Pataxó”. E estava.

Hospitaleiros como são, os indígenas “se puxaram” como se diz aqui no extremo sul do Brasil, de onde escrevo esse texto. Se puxaram na memória, nas ações, nos mutirões, nas canções, na cozinha, na pescaria, para trazer o melhor de si para o Festival, e o melhor de si era também o que estava recôndito na memória. Aliás, hospitalidade é algo que vai do outro para si e de si para o outro, não? Pelo menos foi isso que aprendi com os Pataxós, que hospitalidade é algo de uma profunda troca de cultura, em vários estratos, da escuta, da fala, das apresentações, do comer e beber bem, do não julgar a partir da sua lateralidade e de sentir-se bem com a presença do outro, fazendo-o sentir-se em casa. De receber o outro com uma dignidade que faz o outro sentir-se digno, de dar mais do que seria preciso e de manter o outro livre dentro do seu território.

Tury falou que o Festival estava mexendo no HD dos Pataxós quando as anciãs começaram a cantar canções de roda, uma atrás da outra, como a muito tempo não cantavam. Era a memória voltando à tona da língua. Isso porque estavam a vontade com tudo que estava acontecendo, e felizes por partilharem sua cultura com quem realmente deseja conhecê-la.

Aliás a língua dos Pataxós – Patxôhã (linguagem de guerreiro) da familia maxacali do tronco macro-jê, merece um parágrafo a parte, já que a língua foi quase esquecida devido os anos de contato com a civilização não indígena (517 anos na altura desse texto), mas que num esforço entre professores da escola, agentes culturais e lideranças começou a voltar com força, tendo a escola como um dos pontos de referência. Alguns anciões Pataxós nunca pararam de falar a língua, e as músicas também são recheadas de Patxôhã, além dos parentes próximos, os maxacalis, serem uma plataforma concreta de recuperação da língua, já que nunca pararam de falar, apesar de estarem em situação bem mais delicada que os Pataxós. O que fiquei sabendo por lá, sem grande profundidade de pesquisa é que quando os indígenas resolveram colocar os tambores nos rituais, a memória ficou ainda mais viva, pois voltaram as incorporações, as possessões, a visita das entidades espirituais, e ali pessoas que nem dominam a língua, em estado de transe falam a língua antiga. Num “sincretismo violento” como apelidou Rafael Frazão, com influências quilombolas, católicas, evangélicas, indígenas de várias etnias num sagrado-profano refinadíssimo, o que torna os pataxós um povo altamente eclético, que traz nos estilos musicais um acervo profundo e exuberante.

30854433463_043a566348_o(Festa de São Benedito)

Enquanto estávamos no Festival tivemos Festa de São Benedito com sambas, procissões pela Aldeia e também nas casas das pessoas ou na igreja. E a Festa de São Brás feita nas ruas da Aldeia Barra Velha. O povo cantando samba passava nas casas das pessoas para pedir bebida com essa música: “Senhora dona da casa, por Nossa Senhora, me dá uma bebida, que eu vou beber agora. Eu não saio, eu não saio, eu não saio daqui sem beber, eu não saio, eu não saio, eu não saio sem tomar uma!!” E as donas da casa servem bebida a todos convivas. Isso dura cinco dias. Os homens tocam e as mulheres dançam no meio da roda, sem parar… O que dá uma sensação de transe muito forte. Mas tem mulheres que tocam também.

Nesse panorama esquizo que estou traçando aqui vai aparecendo muitas histórias, que na minha cabeça se confundem entre os sete dias de festival com a pré-produção e pós-produção do mesmo. Para mim foi tudo uma grande experiência, que em algum ponto encheu de gente e depois aos poucos foi esvaziando, mas em nenhum momento deixou de ser a coisa em si, com nossos anfitriões dando o máximo de si para que tivéssemos uma boa estadia e nós retribuindo como podíamos já que no quesito hospitalidade, eles são mesmo imbatíveis. Das diversas recordações que surgem, vem a festa de batuque na casa do Fernau e Zélia Pataxó, tocando pontos de caboclos, que aconteceu pós-festival. Fomos presenteados com duas horas de batuque dos mais potentes com uma riqueza musical de outro mundo (literalmente já que São Martin e outros caboclos estavam presentes). A gente já não tinha ideia de quantas pessoas tinham ficado depois do festival terminar. Fernau e Zélia convidaram para uma janta na casa deles e perguntaram quantas pessoas restaram, eu falei 14, mas apareceram 27. Ou seja, onde estavam essas pessoas durante o dia? Estavam imersas na Aldeia, na casa dos indígenas, cada um nas suas próprias viagens com as diferentes famílias. Uns fazendo farinha, outros no rio pescando de canoa, outros na praia, outros com as crianças colhendo mandioca, e assim foi. Parecia que não acabava.

Alguns de nós chegaram na Aldeia Pará  por volta do dia 10 de novembro para ajudar na preparação do festival que começava dia 20, então teríamos 10 dias para ajudar nos mutirões, nas compras, na estrutura do Festival. Mas chegamos a baixo de chuva e durante os 10 dias anteriores não parava de chover. Nos tornamos literalmente uns refugiados climáticos dentro da Aldeia. Se não fosse a ajuda dos Pataxós seríamos derrotados pelo clima. Nossas barracas inundaram, nossas cobertas encharcadas, nossas roupas cheias de barro, a cozinha que construímos no camping da Mãe Jabuticaba desmoronou, as lonas romperam com o vento, não conseguíamos fazer comida. No terceiro e quarto dia já parecíamos um bando de zumbis perdidos loucos de fome. Inevitável nesse momento lembrar de Viveiros de Castro e Deborah Danowski no seu livro Há Mundo Por Vir?, quando falam que os indígenas são os grandes sobreviventes do fim do mundo, já que seu mundo vem sendo destruído a tanto tempo, e mesmo assim continuam existindo. Que quem vai se dar mal com os câmbios climáticos são os não-índios acostumados com a zona de conforto da cidade. Assim é que nos sentíamos, incapazes de lidar com o clima, já que não estávamos preparados o suficiente. Nesse meio tempo os Pataxós nos ajudaram a recompor tudo, fortalecer as lonas, arrumar a cozinha, a comer todos os dias, tomar banho, e principalmente, a cantar descontraidamente os sambas e músicas dos awês enquanto a chuva caía.

30823026774_b565bbe2e0_o(Ritual final com todos plantando juntos na agrofloresta)

Jonatan Sola já estava na Aldeia desde 2015 com agrofloresta no campo próximo à casa do Cacique Ubiratan, e era o intermediário entre a Aldeia e o Festival junto com outros indígenas como Akurinã, Ubiratan, Paty, Djalma e as Cris (Crispina e Crispiniana), irmãs gêmeas que coordenam a associação dos moradores indígenas da Aldeia Pará. Durante esse ano estive algumas vezes na Aldeia, na casa de Akurinã e juntos visitamos as famílias, as lideranças, as anciãs e anciões, os professores e professoras da escola, os jovens, os trabalhadores e trabalhadoras, fizemos reuniões nos quijemes (casas) indígenas e também na igrejinha central para participar dos encontros da comunidade. Falamos do Festival para cada familia e grupo para que dissessem suas demandas e pudéssemos falar das nossas. Nesse meio tempo houveram discussões, onde alguns indígenas mostraram preocupações em relação ao Festival, que poderia ser muito pesado para a comunidade. Temiam que fosse uma rave, que tivesse muitas drogas, e que o mal comportamento dos indihis (não índios) pudesse alterar a juventude local e incomodar as famílias. Apesar da rede do Tecnoxamanismo ter uma posição política em relação às drogas bem libertária, e tratar a drogadição como questão de saúde pública e não de polícia, e se colocar a favor da descriminalização e legalização das drogas, nos comprometemos de fazer um festival suave, da forma mais respeitosa possível e que o foco seria nas demandas que combinamos: cooperar na salvação das nascentes com agrofloresta, os banheiros secos para ajudar na compostagem, as oficinas de multimídia, a instalação da Baobáxia da rede Mocambos e a instalação da internet, com rádio web, e claro, algumas festas seriam feitas, umas indígenas e outras indihis, mas que não virariam a noite. Então as pessoas se tranquilizaram e apartir desse ponto, com toda a comunidade Pataxó de acordo, começaram os preparativos para o Festival. Isso quer dizer que começaram inclusive as plantações, já que chegariam muitas pessoas de fora e a comida seria toda comprada na própria comunidade, então tinham que preparar a horta, a plantação da mandioca, do feijão, das abóboras, das melancias, dos abacaxis, consertar os barcos, e assim foi. Muito pouca coisa compramos de fora, como sal, açúcar, arroz e alguns ingredientes particulares. De resto, tudo que comemos durante o Festival veio das plantações locais.

31548721241_e4ac567de1_o(Comilança do robalo de 12 kilos – culinária Pataxó)

Falando em comida aconteceu uma coisa engraçada. Um dia antes do festival, estávamos na Barra Velha articulando com professores da escola e quando chegamos na Aldeia Pará, os indígenas estavam nos esperando agrupados com cara de decididos. Me deu um frio na barriga _ Por Tupã, o que aconteceu? As mulheres Pataxós tinham decidido que quem cuidaria das refeições eram elas, porque os participantes do festival não poderiam sair de lá falando que comeram comida de indihis dentro da Aldeia. E que isso estava decidido!! Nós tinhamos combinado nas reuniões anteriores que a comida seria comprada na comunidade, mas que grupos diferentes de participantes do festival cozinhariam, exatamente para não reproduzir a nefasta imagem de indígenas trabalhando para não indígenas. Mas não teve jeito, as mulheres Pataxós quizeram cuidar das refeições, que seria toda baseada na culinária Pataxó. Os indihis ficariam na retaguarda ajudando na cozinha e na lavagem da louça suja, e assim foi. Não lembro de ter comido tão bem em toda minha vida, caranguejo, robalo, ostras, lambreta, arraia, farinha de puba, cauim, suco de mangaba, e até onde eu sei os vegans e vegetarianos foram muito bem servidos com abóboras, mandioca, feijão, saladas, etc. A culinária Pataxó foi um dos pontos altos do Festival!! O dinheiro do crownfunding e das inscrições bancou a circulação dessa economia alimentícia entre cozinheiras, pequenos agricultores, pescadores do mar e do rio, coletores dos manguezais. horteiros, etc.

Vendo o festival Zapatista1, que aconteceu logo depois do festival de Tecnoxamanismo, e a quantidade de palestras maravilhosas por streaming sobre ciência e humanidade, o conhecimento dos palestrantes, o nível das discussões, o engajamento dos Zapatistas nos debates, a organização da programação, fiquei me perguntando se o nosso não teria sido por demais desorganizado? Se os temas foram os mesmos, ou seja, ciência, tecnologia, etno-astronomia, cultura espacial, mecânica quântica, software e hardware livre, inteligência artificial, construção de geradores de energia livre, povos originários, medicina indígena, cosmovisões, alquimia, ficção científica, sequestro da água, cuidado do planeta Terra, antropoceno, etc, como não pensamos em favorecer uma estrutura mais rigorosa para que todos esses assuntos tivessem mais ressonância, e por isso fosse levado mais a sério? Porque optamos por não colocar as oficinas em horários certos, uma atrás da outra, com tempo demarcado, anunciadas previamente no site? Digo isso porque várias pessoas andavam perdidas pelo meio do festival sem saber o que estava acontecendo, sem saber direito como se inserir nos processos e ainda sem entender direito quais eram os motes do encontro. Num dos dias do festival, quando deu uma folga, fomos entre umas cinco pessoas tomar um banho na prainha de rio entre Caraíva e Aldeia Barra Velha. Ali falamos mais ou menos assim, que tem eventos que são organizado pelo tempo do cronograma, tem outros que são organizados pelo tempo das coisas. E apesar de ter sido de fato meio bagunçado, tudo aconteceu nessa outra ordem, na ordem das coisas entre si.

Para falar melhor disso eu diria assim, que o tempo de uma Aldeia indígena não é medido pelo tempo da cidade ou da academia. Durante o festival parecia que as coisas não estavam funcionando, mas estava tudo acontecendo. As coisas eram medidas entre o café da manhã no meio da manhã e o almoço no meio da tarde, entre a chuva e o sol, entre o antes da chegada da internet (no meio do festival) e depois da internet, entre as propostas dos indígenas e as propostas dos indihis. E enquanto isso os grupos se formavam entre si para fazerem as trocas de conhecimento seja com abelhas, agrofloresta, troca de sementes, oficinas de multimídia, rituais, oficinas de artesanato, oficina de baobáxia, oficina de circuito eletrônico, produção e edição de vídeo, intranet, gravação e edição de música, de fazer farinha, de fazer banheiro, de óleos essenciais, de massagens, meditação, ajudar na cozinha Pataxó, sambas na igreja, circo, dança contemporânea, yoga, danças Pataxós, batuques, sagrado feminino, de visitar as casas Pataxós para conversar, tomar cauim, entender mais sobre banhos, ervas, medicina indígena, aulas de inglês, entre outros.

30823032344_b4216b80ec_o(Oficina de Baobáxia no Quijeme Cultural)

 

Vale a pena falar da chegada da internet na Aldeia. Estávamos esperando a internet para antes do festival. Mas por duas vezes o homem da firma que vinha instalá-la atolou o carro devido as chuvas, de modo que disse que só viria quando o tempo firmasse, isso aconteceu só na metade do festival, e impediu que uma série de oficinas como a rádio web funcionasse antes disso, ou que falássemos com o público online, ou respondesse demandas dos participantes que estavam chegando. Quando a internet chegou tinha que instalar a antena, o Paty que foi coordenador durante anos do ponto de cultura da Aldeia Velha Pataxó em Arraial d’Ajuda, e um dos responsáveis pela criação do Quijeme Cultural da Aldeia Pará, arrancou um poste sozinho com as próprias mãos, de feliz que estava com a chegada da internet e logo o colocou no lado do Quijeme Cultural. Foi um momento de grande festa. Essa era uma demanda Pataxó para o Festival, e ficamos muito felizes quando aconteceu. Fizemos festa, ritual, cantorias e a internet foi abençoada com toda a força da pajelância pataxó e tecnoxamânica. Nos primeiros dias os indígenas olhavam com estranheza para toda aquela novidade, em seguida já estavam todos na sala perguntando sobre tudo, colocando música, aprendendo baobáxia, fazendo aulas de inglês, editando vídeo e alguns abrindo emails pela primeira vez, já que muitos usam celular e participam assiduamente da vida online. Os computadores vieram da Associação dos pescadores da Aldeia Barra Velha, e se tornaram parte integrante da Associação dos moradores indígenas da Aldeia Pará. Apartir disso o Quijeme Cultural não parou mais de funcionar, inclusive com a continuação da instalação do Baobáxia, que voltou após o término do Festival.

Na quinta feira seria o ritual tecnoxamânico propriamente dito, onde se juntariam as culturas locais com as de fora, e se faria um noite transcultural com ruído, noise, pajelância indígena, video-mapping, projeções, tambores, luzes, teremin, fogo, etc. No começo da noite faltou luz e só sobrou o fogo. Na volta da fogueira houve um ritual profano-sagrado, as sombras das danças nas paredes, os tambores, os cantos indígenas, a performance dos orixás, a dança de contato e improvisação, as lanternas, os flashs dos celulares, com um apogeu glorioso de todos na volta da fogueira sem parar de dançar em roda e emitir grunhidos. Ali se misturou o ritual indígena e não indígena. Foi sensual, belíssimo, libertador. Ao nos perguntarmos do porque faltou luz logo na noite da explosão tecno, a resposta que mais ouvimos, inclusive dos indihis foi: Tupã que sabe!

Interessante dizer que “Tupã que sabe” não equivale a dizer “Deus que sabe” do catolicismo tradicional. Parece que Tupã funciona mais como um atrator que promove a sincronicidade entre as coisas, um movimento do tempo, do que um Deus representado pelo criador onipotente, onisciente, onipresente. Não existe um controle sobre os agentes que determina um destino certeiro, um controle que operacionaliza a relação entre as coisas, mas uma linha que liga essas coisas entre si, que o tempo sabe, ou que faz sentido no tempo. Isso dá uma suavidade na interpretação dos acontecimentos. Um dos participantes ateus brincava: “virei monoteísta de novo, estou gostando demais desse Tupã”. Mas ele sabia que não se tratava de monoteísmo. E apesar da influência quase abusiva da igreja católica e mais recentemente da igreja evangélica na tradição Pataxó, o sincretismo salva tudo, tudo vira um grande agregado de culturas naquela aparelhagem de hibridização.

Uma das anciãs mais respeitadas da comunidade – a bruxa, pajé, sábia Mãe Coruja, chegou só nos últimos dias do festival, o motivo é que estava em Brasília por conta do despejo da comunidade Pataxó da Aldeia Aratikum (Cabrália/Bahia). Foi organizado um grupo de lideranças de várias aldeias Pataxós para reivindicar o retorno dos indígenas para aquela terra. Em uma das entrevistas que ela deu no festival ela disse que teve um momento na reunião no Ministério (que não soubemos qual foi) que ela incorporou, as pessoas pensaram que ela estava precisando ir para o hospital e a levaram, lá ela disse: “eu não preciso de remédio, eu faço remédio”! A política não entende nada possessão. Logo na outra reunião do Ministério ela falou para o Ministro que: “quem tem medo de cagar pelo não come couro”. Foram vários dias de conversas e reivindicações dos Pataxós contra esse despejo em Cabrália. Como ficamos meio ilhados na Aldeia Pará devido as chuvas anteriores ao festival, não conseguimos ir até Aratikum (cerca de 300 km da Aldeia Pará) como queríamos, então as notícias que tínhamos eram dos indígenas que chegaram de Brasilia e passaram por Aratikum e foram para o festival, como Mãe Coruja ou através do whatssap. Até a altura desse texto não se sabe ainda qual o resultado dessas reivindicações2.

Falando em reivindicações, vale colocar aqui que também houveram críticas ao festival. Todas essas questões são relevantes para nos fazer pensar nos próximos encontros e ampliar o espectro das nossas ações. Aqui levanto uma das que considero mais impotantes, que é a questão do turismo, que foi promovida várias vezes nas discussões do festival, na rádio e nas experiências dentro da Aldeia. Essa demanda foi trazida pelos indígenas.

Muitas Aldeias Pataxós da “Terra do Descobrimento” se tornaram pontos turísticos, na maioria delas isso foi introduzido por donos de empresas e em alguns locais pelos próprios indígenas, que aproveitam o fato de habitarem uma região turística para aumentar suas possibilidades de trabalho, trazendo turistas para dentro das Aldeias. A Reserva da Jaqueira em Porto Seguro é um exemplo disso, sua economia baseia-se quase que inteiramente no turismo e na venda de produtos indígenas, mesmo que sofram críticas de outras Aldeias sobre a usurpação e esgotamento que esse turismo promove, já que no caso da Jaqueira é feito a partir de acordos e negociaçẽos com empresas de turismo comercial, isso equivale a dizer que os índios trabalham o dia inteiro para receber inúmeras vans e ônibus lotadas de turistas, e com isso diminui seu tempo interno de viver a própria cultura. Isso também é uma realidade nas Aldeias próximas a Caraíva e Corumbau. No caso da Aldeia Pará o turismo ainda não é avassalador, e tem chegado aos poucos, trazidos por grupos de indígenas que trabalham com turismo comercial na Aldeia Barra Velha, que levam turistas para visitar as Aldeias da Região. Também é bem comum que grupos de danças, cantos e cultura Pataxó sejam convidados para se apresentar nos hotéis, nos restaurantes ou em festas particulares. É uma forma deles fazerem alguma grana e apresentar sua cultura.

Nas reuniões anteriores ao festival foi pedido que houvesse algumas discussões sobre turismo para que os indígenas pudessem aprofundar essa ideia e se apropriar desse mercado ao invés de serem apropriados por esse, como de fato está acontecendo. Então foram feitas algumas discussões e experiências entre indígenas e indihis no festival e alguns debates sobre etnoturismo e turismo comunitário, e como fazer disso uma forma de fortalecer a cultura indígena e não o contrário, ou seja, a fragmentação cultural para transformar a área em espaço turístico comum, como é feito nas cidades próximas. Esses foram uns dos debates mais importantes do festival que teve a participação de muitos membros da comunidade, conduzidos principalmente pela Associação dos indígenas moradores da Aldeia Pará como Pajé Djalma e Crispina e Crispiniana Pataxó e por indihis como Leandro Precioso e Sina. Apesar do assunto ser polêmico, a ideia de que pode haver um turismo comunitário que atenda as demandas turísticas mas que sirva para fortalecimento cultural interno da comunidade, foi muito bem vinda e alimentou várias conversas.

31664559695_0a3f41327d_o(Comunidade assistindo os rituais do dia)

Uma das críticas mais contundentes à questão do turismo veio de uma das participantes do festival, a espanhola Laura Prana, que tem experiências com comunidades africanas, que se posicionou como “radicalmente contra o turismo”, pois segundo ela a chegada do turismo representa o fim das comunidades e seus modos de vida. Ela falou que quanto mais se evitar o turismo, mais as comunidades tradicionais podem sobreviver sendo quem são, pois o turismo é a marca do capitalismo selvagem, que engloba tudo e mede tudo com a mesma régua, incapaz que é de se aprofundar na singularidade de uma cultura. Alguns anos atrás eu tive essa experiência na África, na Etiópia. Fiz turismo mediado por um sistema turístico perverso que enche as Aldeias de camionetes e vans e interrompem bruscamente o fluxo comunitário, colocando a moeda como a única mediação nas relações entre indígenas e turistas e forja uma cultura indígena honrosa quando na verdade está desmilinguida, desempoderada, desfalcada. Esse é o típico turismo nefasto que a própria Aldeia Pará quer evitar, mas que acontece cada vez mais nas Aldeias brasileiras e sul americanas.

Como fazer um turismo cuja base não seja essa usurpação inescrupulosa da cultura do outro? E ao mesmo tempo que proporcione que o capital circule entre as Aldeias, por motivos óbvios: O crescimento populacional indígena, a miserabilidade crescente, a perda de território, a chegada das monoculturas e do gado de corte no entorno das reservas, a devastação de áreas indígenas, a poluição dos rios por parte dos empresários do campo com agrotóxicos ou desvio de água, a escasses de alimentos ou falta de investimento governamental para plantação. Apesar de concordar que o turismo é uma desgraça e pode vir a desmantelar uma forma de vida, é importante compreender que do ponto de vista dos indígenas ele se apresenta como uma das formas de trabalhabilidade. Se não é o turismo, os indígenas vão ter que fazer outros trabalhos, cortar cana de açucar, alugar terrenos pra agronegócios, vender artesanato, trabalhar em pousadas, cortar eucalíptos para empresas de papel, etc. Colocar isso em discussão é importante para sinalizar as saídas, as alternativas, as possibilidades de lidar com o turismo sem sucumbir a ele. Como fazer isso é o que se pensou durante o festival, tanto os indígenas como os idihis, e a crítica ao papel do turista que deveria ir para os lugares para trocas mais profundas do que para fazer selfies. Não há conclusão fácil nessa conversa. Mas o turismo nas Aldeias já é uma realidade.

31627520096_d14453ef2a_o(Geodésica da voodohop)

A geodésica da voodohop já se tornou uma peça estrutural dos festivais de tecnoxamanismo. Quando as meninas da voodohop chegaram e começaram a montar a geodésica, indígenas e indihis foram ajudar e prepararam uma grande festa para aquela noite. Do que eu me lembro foi mais ou menos assim, as meninas da voodohop começaram colocando um som ambiente, o Cacique chegou com um cd e pediu para tocar forró, os jovens indígenas pediram música eletrônica, o Akurinã disse que a festa tinha que ser trance, o Pajé pediu para tirar aquele som repetitivo, e eu fiquei na volta reivindicando que só homens que tocavam, que as meninas não tinham conseguido colocar o som. Segundo Pablo eram tantos pedidos diferentes que virou uma bagunça, mesmo assim foi a grande noite da juventude indígena, eles dançaram muito e até onde eu sei, a festa teve aprovação de toda comunidade. E como combinado não virou a noite, mas começou bem cedo, assim que o sol se foi. Foi uma noite de muita música, festa, dança com uma mistura absoluta de estilos musicais (sincretismo como le gusta, Aldeia Pará!).

30854487333_ff37230d1b_o(Festa trance na Tenda de Cura na Casa de Akurinã e Regina)

Numa das primeiras noites teve também uma festa eletrônica, dessa vez mais trance, na tenda de cura na casa de Akurinã e Rejane. Eles preparam o espaço com Caio Vieira (indígena) e mais alguns indihis, que ficou lindíssimo, cheio de velas e cangas criando vários ambientes dentro da mata para as pessoas conversarem, ficarem de boa e também dançar. Foi muito agradável aquela noite, e até onde eu sei, toda a comunidade gostou, lideranças, anciões, jovens e crianças estavam lá e sentiram um bem estar no local. Ali foi um experimento de como pode acontecer uma festa que seja para todo mundo se sentir bem e se comunicar. Não foi proposta pelo festival, mas pelos indígenas da tenda de cura, que gostam de trance e costumam frequentar alguns festivais de trance, entre eles Mundo Paralelo, Soul Vision, entre outros.

Como é de praxe nos encontros de tecnoxamanismo, muita gente se conheceu, se apaixonou, se emocionou, chorou, sorriu, se transformou, fez novos amigos e sofreu com as despedidas. E falando em despedida… Um dos momentos mais emocionantes foi o da despedida oficial do festival. Na tarde do dia 27, um dia antes do término do festival, os indígenas fizeram um awê (ritual) de despedida na arena. Logo seguimos cantando atras deles até atras da igrejinha, pegamos todas as mudas de plantas e fomos direto para a agrofloresta, lá todo mundo junto plantou as mudas. Quase 200 pessoas plantando mudas de árvores. Logo o Cacique Ubiratan pediu para que nos encontrássemos no areal próximo ao Quijeme Cultural que faríamos uma despedida. Eu pensei que seria uma despedida curta, formal, coisa de meia hora. Mas durou quase sete horas. Todo mundo falou. As cozinheiras, os jovens, as mulheres, os guerreiros, as guerreiras, as donas do bar, os participantes do festival, as universitárias, os técnicos, todos que quiseram falar falaram e houve muita choradeira, abraços, muita emoção. Aquelas sete horas passaram rapidamente, com uma festa de forró no final, e a apresentação do vídeo filmado na Aldeia.

31292722740_10ec5fc77c_o(Apresentação da Capoeira de Rede dos jovens de Barra Velha)

Sobre a rádio web, ela só conseguiu subir mesmo na internet depois do festival porque era pesada e tinha muita gente conectando. Apesar de termos gravado quase tudo e termos feitos os debates na rádio durante o festival, ela não estava online. Pablo Vieira foi um grande animador da rádio e narrou jogos, rituais e promoveu discussões. Pedro Perrachia que criou a plataforma da rádio teve que ir para Caraíva para subir, pois a internet na Aldeia ainda não dava conta. Quando a rádio foi colocada no ar, mandamos de lá mesmo de Caraíva o link e as pessoas já começaram a ouvir os primeiros áudios subidos. Quando chegamos na Aldeia foi uma grande festa. Todo mundo falando junto e fazendo pirâmide humana. Daí surpreendentemente o Pajé, o Cacique e o Macumbeiro trouxeram seus instrumentos musicais e começaram a cantar as músicas pataxós em diversos estilos. Rameamos muito, não parávamos de dançar e foi longa a noite, todos celebrando.

Esse não é um texto analítico, nem conceitual, ele só comenta o festival, é despretensioso e muito emocional. Comparto aqui as pequenas e grandes memórias, sendo que deixei de falar em muita coisa que aconteceu, em muita gente querida, em muitas novas amizades, em rede de colaboração e afeto. Mas a lição que eu tomei de toda essa vivência é que vale muito a pena fazer encontros imersivos nesse grau de troca cultural, de transformação pessoal e coletiva e de indigenismo.

Alguns projetos vão continuar acontecendo na Aldeia. Para muitos as conexões foram feitas durante o festival e algumas pessoas já voltaram para a Aldeia para continuar oficinas e trabalhos e continuamos conectados com os pataxós através das redes sociais, rádio, baobáxia e celular.

Videos:https://www.youtube.com/channel/UC4NocgiF9H-304UPXLC1Lug/videos?view=0&shelf_id=0&sort=dd

Fotos: https://www.flickr.com/photos/22405820@N08/albums/72157673936765924 

Rádio: http://radioaratu.eco.br/

Áudios: https://soundcloud.com/user-128339363/pataxos-caos-magia

Site: https://tecnoxamanismo.wordpress.com

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1 No último dia do Festival, a indígena Pataxó Iruana cantou repetidas vezes com lágrimas nos olhos a música “Amigos para Sempre”.
L@s Zapatistas y las ConCIENCIAS por la Humanidad – 30 de diciembre de 2016 Cideci / Universidad de la tierra Chiapas – ttp://seminarioscideci.org/dia-5-conciencias-por-la-humanidad/
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2 thoughts on “Comentários sobre o II Festival Internacional de Tecnoxamanismo na Aldeia Pará Pataxó.

  1. Bom demais!!! Infelizmente não consegui ir nesse segundo festival, mas já vi fotos uns vídeos e agora esse relato, fico muito animado por participar dessa rede.

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