zapatismo e tecnoxamanismo

Para Elenara Vitória Cariboni Iabel

Enquanto estou aqui tentando escrever um texto “leve” sobre o II Festival Internacional de Tecnoxamanismo) vejo os posts de Lelex desde o Festival “Zapatistas y las ConCIENCIAS por la Humanidad” na Universidad de la Tierra de Chiapas1, falando que o Tecnoxamanismo e o Zapatismo estão em sincronia, já que ambos festivais estão às voltas dos mesmos assuntos, que são ciência, tecnologia, etno-astronomia, cultura espacial, mecânica quântica, software e hardware livre, inteligência artificial, construção de geradores de energia, povos originários, medicina indígena, cosmovisões, alquimia, ficção científica, sequestro da água, cuidado do planeta Terra, antropoceno, etc.

Essa sincronia é esperada devido as urgências climáticas, ambientais, econômicas, sociais, que estamos passando, o que sensibiliza a sociedade de diferentes formas, e no caso dos zapatistas essa sensibilidade se torna uma verdadeira máquina de guerra, uma ação política potente, mobilizadora, que agrega subjetividades consigo criando uma corrente de motivações em relação ao desejo e a prática da apropriação/criação científica e tecnológica.

Eles falam sobre “a necessidade de pensar e fazer uma ciência livre e comunitária, vinculando os conhecimentos tradicionais aos produzidos pelo fazer científico, rumo a saberes emancipatórios em defesa da vida e a construção de alternativas para nosso mundo”. Essa frase resume bem o que é o tecnoxamanismo, a tentativa de ativar a memória ancestral (que também é futurista2) e vinculá-la às práticas científicas, com o objetivo de abrir as suas fronteiras e criar novos encaixes que superem paradigmasque julgam a ancestralidade, por exemplo,como uma idiossincrasia de povos subdesenvolvidos (superstição), e a ciência e tecnologia como campo de produção que só pode se desenvolver enquanto subserviente às corporações e à competição do mercado. Esses paradigmasinvestem na desvalorização de todos os outros imaginários que existem e que podem ser inventados, a partir de práticas cientificas e cosmogonias livres e comunitárias.

A ideia de que os conhecimentos tradicionais são “supersticiosos” pode ser rebatida como ideia preconceituosa, derivada de um pensamento colonizador que se gerou e fortaleceu contra as colônias, contra suas perspectivas de mundo (ontologias diversas – ameríndias, africanas, afro-descendentes, etc). Essa perspectiva, como Viveiros de Castro está cansado de falar/escrever, tem maior habilidade para conviver com a biodiversidade da Terra, já que essa é vista como lugar habitado por entidades extra-físicas, além e aquém dos humanos, e por isso mesmo não pertence só aos humanos ou seu pensamento antropocêntrico.

Importante salientar nesse ponto uma coisa óbvia, que a noção do zapatismo de comunidade vêm das comunidades indígenas. O Zapatismo é um movimento indígena e indigenista, que pressupõe que existem outras formas de existir no mundo e fazer relações para além do individualismo, da concorrência, da solidão, da ansiedade, da violência. Comunidade não significa somente a co-existência de um grupo de pessoas que compartilha um espaço/tempo cotidiano, limitado por crenças e valores, mas por pessoas que além disso constróem cosmovisões, passam por experiências coletivas, lutas, conquistas, cultos, transe, intensificação das percepções de espaço/tempo, místicas, rituais, festas, comemorações, narrativas, construção e reconstrução constante de memórias obstruídas, ativação espontânea ou cerimonial do imaginário coletivo, da língua,reafirmação da sua história e da sua cultura assim como da cultura do outro (antropofagia, sincretismo, hibridismo, etc), constituição de projetos para o futuro, revisitação e transformação do passado, investimentos e frustrações compartilhadas, etc.

Promover vinculação entre esses sistemas de operação, ou seja, entre conhecimentos comunitários e ancestrais + conhecimentos científicos e tecnológicos significa colocar todas essas coisas em relação, a fim de inverter certas prioridade. É inverter algumas lógicas lineares, é investir em uma ciência voltada para critérios diferentes em diferentes comunidades, sem retroceder da universalização, mas através de processos que podem estar sendo constantemente rinventados, ou pelo menos articulados entre as comunidades de conhecimentos, já que já se tem tecnologias para isso, e não nesse padrão global de homogenização em detrimento das diferenças.

É nesse sentido que o zapatismo se oferece como uma força movente que agencia nosso inconsciente coletivo, pois se apresenta como uma proposta política, histórica e subjetiva das mais sagazes, que inspira grandemente o tecnoxamanismo, apesar desse ser feito de outra matéria, mais rede do que movimento social, proporcionalmente menor e incipiente, e muito mais desorganizado, mas que aposta na mesma coisa, no indigenismo, na produção de novas linguagens, na reinvenção de estilos, no estímulo à imaginação através da ficção científica, nas fabulações, nas criação de mitos (in process), promoção de performances coletivas, construção de cosmologias e cosmogoniaslivres, na apropriação científica e tecnológica e na criação de novas comunidades, no agenciamento de grandes e pequenos encontros, inventando nesses atos uma sequência própria, ancestrofuturista.

Fabiane M. Borges

1Ocorrido de 26/12/2016 a 04/01/2017 em Chiapas, México http://seminarioscideci.org/dia-5-conciencias-por-la-humanidad/

2Ancestrofuturismo – Cosmogonia Livre e Rituais do it yourself – cfe. Fabiane M. Borges https://tecnoxamanismo.files.wordpress.com/2016/05/ancestrofuturismo-

cosmogonialivre-rituaisfac3a7avocc3aamesmo.pdf

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