Notícias da Aldeia Pará /Barra Velha

Da organização do II Festival Internacional de Tecnoxamanismo na Aldeia Pará e Barra Velha – Caraíva e Corumbau – Sul da Bahia. 

Por Fabiane M. BorgeAo chegarmos na Aldeia Pará (Jonatan Sola e e eu) encontramos a comunidade em luto, por conta de um parente ter sido morto pela polícia, dois dias antes de nossa chegada. Elxs estavam muito tristes, chorosos e discutindo o assassinato, dizendo que a perseguição aos Pataxós continua a todo o vapor, e que todas as provas dadas pela polícia sobre o fato eram infactíveis. Segundo a polícia o indígena teria assaltado um hotel, roubado dinheiro e objetos de valor, logo teria fugido de moto perseguido pela polícia, com quem teria trocado tiros e sido morto. Durante nossa estada lá essas acusações nunca foram evidenciadas. Não se achou os objetos roubados, e a arma que a polícia disse pertencer ao parente parecia cara demais, nova demais, fora do orçamento, status, possibilidade de compra, e seus amigos e primos mais íntimos duvidavam que ele soubesse mexer naquela “coisa moderna”. De forma que nesse clima de luto e desconfiança, decidiram mandar um documento para o ministério público para averiguação mais concreta do que se passou e para denunciar o fato como homicídio.

Alguns dias depois um dos netos de Mãe Coruja apareceu enforcado. Ao que tudo indica foi um suicídio. Apesar das desconfianças sobre esse ato, a comunidade inteira emendou um luto no outro, e ficaram muito tristes em saber que o parente abandonou a vida sem discutir, lamentar, trocar ideia, pedir ajuda, simplesmente foi lá e tirou a vida, como se fosse só dele! Diziam. Isso gerou um sentimento de mágoa, de profunda auto-reflexão sobre o que poderiam ter feito para evitar isso, e especulação se teria sido suicídio ou aparente suicídio ou seja, mais um assassinato indígena.

Apesar dessa cena de dor e luto, nossa presença foi bem vinda, e de certa forma alegrou a comunidade. Tivemos discussões sobre a estrutura do festival, a agrofloresta, o desmatamento causado pela constante seca e pela presença incisiva da VERACEL, a grande fábrica de papel que ronda as terras pataxós com eucaliptos, convencendo xs índígenas a fazerem o mesmo, a alugarem suas terras para plantar eucaliptos para produção de papel, que todos sabem que bebe uma quantidade enorme de água e pode ser muito nocivo para a floresta quando em muita quantidade, além de acabar com a biodiversidade priorizando a monocultura. Também se discutiu a fundamental importância da salvação das nascentes, a presença da internet na Aldeia, como contraponto ao domínio preponderante da rede globo (cada casa indígena tem uma televisão, onde basicamente assiste-se a rede globo). Também falou-se da presença cada vez mais premente da igreja evangélica, e a necessidade urgente de criar outras formas de trabalho para xs jovens, que estão cada vez mais numerosos mas sem muita perspectiva de acesso e futuro.

Nesse meio tempo Mãe Coruja viajou junto com outros parentes para a formatura da sua outra neta, que se formou em pedagogia em Belo Horizonte. Isso deixou toda a comunidade orgulhosa, apesar de ser óbvio o desejo de que se abram mais cursos e não só na área de educação. Por isso que nesse momento o Festival de Tecnoxamanismo é tão bem vindo, pois abre a perspectiva de trazer um pensamento e uma prática de tecnologia para dentro da aldeia sem que isso signifique abandono da cultura e tradições, mas pelo contrário, reforçando a necessidade de outros modos de expressão, acesso e visibilidade do povo Pataxó. Desse modo, foi aberto o espaço da Associação dos Pescadores da Aldeia Barra Velha, que tem 14 computadores, para o funcionamento das oficinas de instalação do projeto Baobáxia – das oficinas de criação de uma rádio web e das oficinas de produção multimídia, que parece estar empolgando todo mundo. Antes isso seria feito na Escola Pataxó, mas os computadores quebraram e não se sabe o prazo de retorno. Isso nos fez pensar na presença de metarecicleirxs no festival, que poderiam dar uma força nisso.

O que nos surpreendeu é que Dona Jabuticaba, mãe do cacique Ubiratã, junto com o marido e os netos, ofereceu seu terreno recentemente organizado para  sediar o acampamento dos participantes do Festival, que parece perfeito e arborizado, em troca o festival se responsabilizou pela implantação de 5 banheiros secos + chuveiros + pias, que deixou todo mundo feliz.

O trabalho do Jonatan Sola na aldeia, que é de reflorestamento com agrofloresta e compostagem com banheiros secos está sendo muito bem acolhido e conta com o engajamento de vários grupos dentro da Comunidade Pará, assim como já faz parte do vocabulário dos parentes (adultos e crianças). Jonatan já tem até apelido (o periquito) porque é falante e divertido, caindo nas graças da comunidade. Ele já está inserido dentro da aldeia, e conhecido como o homem das sementes e das nascentes. Importante frisar que durante nossa estadia, a prefeitura de Porto Seguro foi lá pedir assinatura de um contrato para retirada de água subterrânea direto da Aldeia Barra Velha para alimentar duas ou três pequenas cidades vizinhas, como Corumbau e Caraíva, e isso gerou enorme discussão já que o que está “pegando” na Aldeia é exatamente a crise da água, o secamento das nascentes. Retirar água dali para alimentar cidades turísticas nos pareceu muito sintomático e irresponsável por parte da prefeitura, mesmo assim o documento foi assinado e o projeto será executado, não sabemos ainda qual o nível de negociação empreendido entre prefeitura e comunidade, e quais cláusulas ou retorno à comunidade foi promovido.

Com ajuda de Ubiratã, Akurinã, Caio, Jabuticaba, Mãe Coruja, Regiane, e outras pessoas, a comunidade se prepara para receber o Festival, elas se organizam em grupos específicos que vai desde as estruturas alimentares (plantação para colheita no período do festival) até a questão das vendas de artesanato, jogos indígenas,  debates e turismo responsável. A questão dos AWÊs – rituais espirituais – vai ficar por conta do grupo do AWÊ, que Akurinã está responsável por ajudar a organizar, assim como os rituais femininos será por conta da colaboradora Twry Pataxo.

Estivemos no Monte Pascoal e vale muito a pena a subida no monte, pois além de ter uma vista maravilhosa, permite compreender os limites entre a reserva pataxó, as fazendas de agronegócio e a corrida dos eucaliptos nas beiradas ou entre a reserva florestal. Aproveitamos também para articular a presença de grupos pataxós de outras aldeias como Aldeia Nova Coroa, Aldeia do Pé do Monte, Aldeia Coroa Vermelha, Reserva da Jaqueira, entre outras.

O nosso compromisso com a Terra do Descobrimento é ontológico, simbólico e bem pragmático. O Festival é uma forma de celebrarmos a resistência feita durante esses 500 anos, ao mesmo tempo em que megalomaniacamente propomos a recuperação da paisagem exuberante e tropical do século XVI, como se com isso ajudássemos nossos povos indígenas a reverter a história da colonização, exatamente ali onde ela começou. Tudo se trata de um investimento afetivo e ideológico na biodiversidade (humanas e florestais).

No mais, aqui vão algumas fotos para dar ideia do espaço e das pessoas que se organizam para o festival que será feito na Aldeia Mãe, de onde surgiram todas as comunidades Pataxós.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s