Visita à Aldeia Pará

Fomos até a Aldeia Barra Velha e Aldeia Pará no Sul da Bahia para organizar junto com os pataxós, o II Festival Internacional de Tecnoxamanismo – que será feito em novembro/2016 na Aldeia Pará.

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Na Aldeia Pará

por Fabiane M. Borges

Estou aqui na Terra do Descobrimento, com essa dor no peito, essa sensação de impotência. Falta de poder. Mas como o poder se sustenta? Não é exatamente com a subalternidade dos outros? Que poder se tem quando não se tem/se pode/se deseja subalternos?

Estou aqui na Terra do Descobrimento fazendo as conexões com os grupos locais e com as comunidades indígenas pataxós para organizarmos o II Festival Internacional de Tecnoxamanismo. Eles decidiram que querem que seja lá. Mas precisamente o pessoal da Aldeia Pará, onde Jonatan Sola desenvolveu a agrofloresta e os instrumentalizou para salvar nascentes. Onde conhecemos Mãe Coruja, mãe de Akurinã e mais uns quantos. Ela não se converteu a Jesus Cristo, nem se autto-intitula pajé. Mas é pajé. E todo mundo sabe. Mas continua essa dor no peito. A impotência diante das expulsões de terras que os pataxós continuam sofrendo. Tantos anos de resistência. Mestres em sobrevivência. Eles estavam por aqui quando apareceram as primeiras caravelas. Foram uns dos primeiros grupos indígenas a enfrentarem os Europeus. 500 anos depois eles continuam aqui, sobrevivendo, na criação de cultura e língua própria.

Depois do massacre de 1951, quando a aldeia mãe foi dizimada, quando cada grupo, família ou indivíduo teve que sair às pressas da sua aldeia, se esconder na mata por dias, enfrentar o mar, fugir para Minas Gerais, pensou-se que enfim eles iriam dispersar-se e que o território não seria mais pataxó. Ledo engano. Eles voltaram. Voltaram sem língua, sem lembrar dos cânticos, mentindo que eram japoneses, bolivianos, qualquer coisa que não soasse pataxó, esqueceram a língua mãe. O trauma engoliu a língua dos pataxós. E mesmo assim eles voltaram.

Eles voltaram sem língua mas determinados, queremos ser índios de novo. O mundo de dispersão não trouxe nada de bom, talvez para alguns, mas para a maioria não. Juntos são mais fortes, faz mais sentido. “Não deixa o samba morrer”. E aqui estão, plantados na terra, com seus pés de raíz daninha. Ervas daninhas, atrapalhando a paisagem de um dos litorais mais belos do país. Mas os lanbisgóias nunca desistem. E não desistirão tão cedo, de intrometer-se naquelas terras para fazer resortes e plantar eucaliptos. Muito dessa região já é feita de paisagem de eucalipto.

Assisti uma cena que foi muito bonita. No awe pataxó (ritual feito todas as sextas feiras), houveram duas incoporações, e as mulheres possuídas falaram na língua antiga. Aquela que eles não tem mais acesso. Isso emocionou todos aqueles que estavam presentes na sessão. Que não são tantos assim, são poucos, já que muitos não vão para o awê porque se converteram a Jesus Cristo. Naquela área, mais precisamente na Aldeia Barra velha, tem mais ou menos 6 igrejas evangélicas, inclusive com pastores indígenas, e eles disputam a metafísica.

Na Aldeia Pará, 6 km da Aldeia Barra Velha, ainda se pode encontrar um pensamento mágico exuberante. Os banhos. As lendas. As cantorias. A beira do rio. Todas as histórias da mãe coruja e outras mães, alinhavadeiras, fazedora de cauim e mandioca. Todas elas, junto com professores da Escola, com jovens da cultura pataxó, disseram para ser lá o II Festival de tecnoxamanismo, e assim será.

Dois mundos que se encontram… disputando atenção com a ingreja evangélica, mas principalmente, cumprindo o papel que nos pediram e que aceitamos: 1 rádio para a comunidade, reativar o centro de computadores, fazer 15 banheiros secos, e fazer os rituais coletivos. O resto, está em andamento. No meio do caminho Mãe Coruja adoeceu. Mas esperamos que já melhore.

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